Em 2023, Jessica Reis tinha 22 anos, cursava Engenharia de Produção em Curitiba (PR) e ia à missa todo domingo. Por dentro, porém, seguia um vazio e incompletude. A fé aprendida na catequese e confirmada no Crisma havia encolhido até se tornar preceito cumprido, o gesto dominical sem a intimidade que um dia o animou. O resto da semana girava em torno das festas da universidade e de amizades que preenchiam o calendário.
“Eu me vi no mundo, vivendo uma vida desregrada, sem Deus, vazia. Aquela fase que todo jovem passa, que esfria o relacionamento com Deus, e você pensa: pronto, concluí [o Crisma], agora é cumprir o preceito, ir na missa todo domingo.”
Três anos depois, Jessica é analista em uma empresa automotiva, apresentadora do Lúmen Jovem na TV Evangelizar, fundadora de um grupo de jovens em sua paróquia, noiva desde maio de 2026 e com uma pós-graduação em Gestão de Pessoas começando neste segundo semestre. Nas horas vagas, treina musculação, lê Harry Potter, vai ao cinema e grava vídeos para o Instagram e o TikTok. Seu sonho número um, como conta, é ir para o céu.
“O meu sonho número um é ir para o Céu e levar o máximo de pessoas comigo, o máximo de jovens que eu puder levar, eu vou levar. E o meu sonho número dois é me casar e construir uma família que perdure por muitos e muitos anos, com filhos e um esposo com quem a gente possa viver nos princípios da fé.”
O que aconteceu entre o vazio de 2023 e a missão de hoje é um mapa de como a evangelização jovem funciona quando encontra o jovem onde ele está.
Foi um convite que mudou a direção. Em 2023, Jessica participou de um retiro de Treinamento de Liderança Cristã (TLC) e voltou com dois movimentos simultâneos: uma transformação interior e um olhar novo sobre o que estava ao redor. Ao rever a trajetória de afastamento, identificou o ponto onde havia perdido.
“Eu voltei com o olhar de liderança para a minha paróquia e vi que não tinha um grupo de jovens. E que era essa falta que fez com que eu me afastasse no tempo do Crisma.”
Perceber o problema foi o primeiro passo. O segundo foi fazer algo a respeito e então fundou o Jesus Água Viva, o Javi, na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, na Vila Verde, em Curitiba. O grupo existe há três anos e tem salvado muitos jovens de percorrer o mesmo caminho que ela percorreu. As festas da faculdade foram ficando para trás, parte das amizades foi junto, e houve um momento em que o pensamento de recuar passou pela cabeça.
“Passou pela minha cabeça viver uma fé ‘raimundo’, um pé na Igreja e um pé no mundo”. O que a fez continuar foi lembrar da alegria rasa, a felicidade de passagem, o vazio que nenhum rolê preenchia.
“Nada, nada me dava uma alegria tão grande e verdadeira quanto a vida na Igreja, as amizades verdadeiras que eu havia conquistado, e o quanto aqueles jovens dependiam do meu testemunho de que aquele mundo não era verdadeiro.”

A história de Jessica não é uma exceção. É, como uma pesquisa nacional de 2025 demonstrou, o retrato de uma geração inteira à espera de ser encontrada. O levantamento realizado pela Comissão Episcopal para a Juventude da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ouviu 11.498 jovens entre 12 e 29 anos ao longo de três meses e traçou o perfil mais detalhado já produzido sobre a fé juvenil no País.
O achado central contraria o discurso do esvaziamento religioso que costuma dominar o debate: religião e espiritualidade é o tema mais buscado por esses jovens na Internet, à frente de entretenimento, educação e política.

Dentro do Lúmen Jovem, convivendo semanalmente com jovens de histórias e perfis variados, Jessica desenvolveu uma leitura do que essa geração carrega e que os adultos ao redor nem sempre conseguem perceber. A comparação permanente, alimentada pelo acesso ilimitado às redes sociais, aparece como uma das feridas mais presentes.
“Antes, os jovens tinham a ‘tia do pavê’, que comparava com o primo. Hoje o jovem não tem só o primo, tem o influencer, o tiktoker, uma rede de mais de mil pessoas que ele segue”, explica.
O efeito é uma ansiedade que paralisa antes mesmo de agir, um coração que pula etapas e já vive ansioso pelo resultado antes de executar o processo.
“Os adultos não entendem esse coração ansioso do jovem que o paralisa no tempo, porque o mundo deles era mais desacelerado. Não têm essa empatia, esse pastoreio, esse direcionamento.”
A pesquisa da CNBB confirma o que Jessica descreve a partir da experiência vivida. Mais de 50% dos jovens não se sentem emocionalmente bem de forma plena: 37% relatam dificuldade em memória e atenção, associada ao uso excessivo de telas, privação de sono e ansiedade; 36% se descrevem como inseguros na maior parte do tempo; e saúde mental aparece como o terceiro tema de maior interesse entre os jovens quando se trata do que querem aprender e aprofundar na vida pastoral.
A dependência digital, apontada por 16% como um problema real que já percebem em si mesmos, é o único desafio equilibrado entre homens e mulheres na pesquisa, o que o relatório descreve como um desafio genuinamente transversal a toda a geração. Os jovens que têm fé ativa relatam mais resiliência, mais esperança e maior capacidade de atravessar o sofrimento sem se perder nele.
Quando perguntada sobre o que um jovem consegue transmitir sobre Deus de um modo que um adulto, por mais experiente, não alcança da mesma forma, ela responde.
“Os adultos veem Jesus como pai. ‘Pai, preciso de saúde. Pai, preciso de cura.’ O jovem vê Jesus como irmão, como alguém ao lado, não acima. Ele conta tudo, o dia horrível, a frustração, a alegria pequena. Não como quem pede audiência, mas como quem desabafa com um amigo próximo. O adulto não vê Jesus como alguém a quem vai encher o saco. O jovem vê ‘ah, vou contar tudo pra Jesus, tudo'”.

Essa proximidade com o sagrado é exatamente o que os números da pesquisa captam no campo aberto: jovens que conversam com Deus sobre o futuro com a mesma naturalidade com que conversariam com alguém de plena confiança. É também o que torna o testemunho de jovem para jovem um instrumento de evangelização com uma autenticidade que complementa o que a pregação ministerial oferece e que, quando os dois caminham juntos, multiplica o alcance da missão.
A chegada de Jessica ao estúdio da Lumen Jovem, na TV Evangelizar, foi uma sequência de portas que o Senhor foi abrindo. “Quando assistir uma vez só não basta. A pessoa entra no vídeo, assiste uma, duas, três vezes, se emociona, se toca. E depois quer mais, mais conteúdo, mais direcionamento.”
O programa, feito de jovens para jovens, com formação, testemunhos, diálogo e evangelização à luz da fé cristã, estreou em 11 de julho de 2026 e vai ao ar todos os sábados, às 09h30.

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