Quando Deus descreveu a Terra Prometida ao povo de Israel, escolheu uma imagem de abundância e sabor: “uma terra que mana leite e mel” (Ex 3,8). Desde o princípio, os alimentos que nutrem e agradam ao paladar fazem parte do projeto do Criador e a Bíblia traz registros de refeições partilhadas, frutas colhidas, vinhos celebrados e doces oferecidos como sinal de festa e alegria.
Nesse Dia do Chocolate, vamos a uma curiosidade: o que Jesus comia de doce na Palestina do século I? E o que a Igreja nos diz sobre comidas que trazem tanta alegria e despertam os sentidos?
Na Palestina do século I, não existia açúcar refinado. O adoçante universal era o mel, abundante na região e presente em toda a Bíblia, do Salmo 19 ao Evangelho de Lucas, que narra Jesus comendo peixe assado após a Ressurreição (cf. Lc 24,42). O mel era usado puro nas refeições ou na elaboração de pratos doces, substituindo o que hoje chamamos de açúcar.
As frutas doces eram a “sobremesa” da época: figos frescos ou secos e prensados em bolos (cf. 1Sm 25,18), tâmaras, cujo suco fervido virava um xarope denso e doce, uvas passas (cf. 1Cr 12,40), romãs, cujo suco era muitíssimo apreciado (cf. Ct 8,2), amêndoas e pistácias (cf. Gn 43,11). Deus havia descrito a própria Terra Prometida como “terra que mana leite e mel” (Ex 3,8) como uma promessa de sabor.
O Salmo 19 compara a lei do Senhor ao mel: “São mais doces do que o mel, do que o mel que destila dos favos” (Sl 19,11). O mel era símbolo da bondade de Deus.
O Catecismo ensina que a criação é boa, pois “Deus viu tudo o que havia feito e achou muito bom” (Gn 1,31), e que os bens materiais, incluindo o alimento, são dons de Deus a serem recebidos com gratidão.
O prazer de comer não é, em si, um problema. O problema é o excesso, a gula, que pecado. O Catecismo afirma que “a virtude da temperança leva a evitar toda a espécie de excessos, o abuso da comida, da bebida” (CIC § 2290). O que implica que comer e beber com moderação e gosto é legítimo, bom e humano.
As Escrituras confirmam que Jesus desfrutava de uma boa mesa. Ele comia com as multidões (cf. Mt 14,13-21), com os discípulos, com fariseus e com pecadores (cf. Lc 5,29-32). O Céu, não por acaso, é comparado a um banquete (cf. Mt 22,1-14). O prazer de comer é uma antecipação terrena de algo muito maior.
O cacau não chegou à Europa antes do século XVI, muito depois do tempo de Jesus. Mas a lógica é que é fruto da criação, com cacaus e suas bases, transformado em alimento, capaz de proporcionar prazer. Recebê-lo com gratidão, sem excesso e sem culpa, é digno e bom. Então, feliz Dia do Chocolate. Com moderação e com gratidão.
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