Perdoar quem nos machucou é um dos pedidos mais difíceis que o Evangelho faz. Não o perdão fácil, dado a quem pediu desculpa com sinceridade e nunca mais repetiu o erro, pois esse é relativamente simples. O perdão difícil é aquele dado a quem não pediu, a quem talvez nem saiba o mal que causou, a quem pode voltar a machucar. É esse que a maioria das pessoas carrega como peso por anos e é esse, que parece aos Filhos de Deus tão difícil, que Jesus, na Bíblia, mais insiste em ensinar.
No Dia Nacional do Perdão, celebrado em 30 de agosto (Lei 13.437/2017), reflita sobre: o que a Bíblia e a Igreja Católica dizem sobre como perdoar pessoas difíceis de verdade?
O primeiro equívoco a desfazer é o mais comum: perdoar não significa dizer que o que aconteceu foi aceitável, nem apagar a memória do que foi feito ou necessariamente restaurar a relação como se nada tivesse ocorrido. O Catecismo da Igreja Católica, no número 2844, diz:
“O perdão cristão não é indiferença ao mal.”
Quando Pedro pergunta “Senhor, quantas vezes deverei perdoar meu irmão quando pecar contra mim? Até sete vezes?”, a resposta de Jesus vai na direção oposta ao que o discípulo esperava: “Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mateus 18,21-22). O número não é literal, é a forma de Jesus dizer que o perdão não tem contagem. Saiba mais sobre isso neste post: Quantas vezes devemos perdoar, de acordo com a Bíblia?
A pergunta mais honesta sobre o perdão não é “como fazer”, é “por quê fazer.” Perdoar é participar da natureza de Deus. “Sede misericordiosos, como vosso Pai é misericordioso”, diz Jesus em Lucas 6,36. E São Paulo, escrevendo aos Colossenses, coloca o perdão como consequência direta de ter sido perdoado:
“Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se alguém tiver queixa de outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, perdoai também vós” (Colossenses 3,13).
Quem recebeu misericórdia é chamado a dá-la, como consequência de ter entendido o que aconteceu na cruz. Jesus, na cruz, pediu perdão pelos que o crucificavam enquanto ainda estavam crucificando-o: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” (Lucas 23,34). O modelo mais alto de perdão não esperou o arrependimento do outro.
Um dos ensinamentos mais libertadores sobre o perdão é este: ele raramente acontece numa única decisão. O Papa João Paulo II, ao visitar na prisão o homem que tentou assassiná-lo em 1981, Ali Agca, expressou que o perdão é um caminho que se percorre. Ele levou tempo para visitar o atirador, conversou com ele e segurou sua mão.
O Catecismo reconhece essa dimensão ao afirmar que “não está em nosso poder não sentir mais a ofensa ou esquecê-la; mas o coração que se oferece ao Espírito Santo transforma a ferida em compaixão e purifica a memória ao transformar a ofensa em intercessão” (CIC, n. 2843). O perdão começa com uma decisão da vontade, de ” quero perdoar”, e se completa com a graça, que faz o que a força de vontade sozinha não consegue.
1 – Orar pela pessoa que magoou para pedir que Deus a abençoe. Jesus instrui exatamente isso: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mateus 5,44). A oração muda quem ora e é impossível rezar sinceramente por alguém por muito tempo sem que algo mude por dentro.
2 – Levar o peso à confissão: o Sacramento da Reconciliação é também o espaço para nomear o que foi feito contra nós e pedir a graça de perdoar. O sacerdote pode oferecer orientação espiritual para esse processo.
3 – Distinguir perdão de reconciliação. Perdoar é uma decisão interior que não depende da outra pessoa. Reconciliar é um processo relacional que exige disposição dos dois lados. É possível – e às vezes necessário – perdoar sem restaurar a relação, especialmente em casos de abuso ou perigo real.
4 – Repetir quando a ferida voltar. O perdão não é uma vitória permanente que, uma vez conquistada, nunca precisa ser renovada. A memória dói, mágoa volta e cada vez que volta, é uma nova oportunidade de escolher perdoar setenta vezes sete.
Quando é o Dia Nacional do Perdão no Brasil?
Em 30 de agosto, instituído pela Lei 13.437/2017.
O que a Igreja Católica ensina sobre o perdão?
O Catecismo da Igreja Católica (n. 2843-2845) ensina que o perdão cristão é um ato da vontade, sustentado pela graça, que não minimiza a ofensa mas transforma a ferida em compaixão. É apresentado como condição para receber o perdão de Deus, conforme o Pai-Nosso.
É possível perdoar sem reconciliar?
Sim. Perdão é um processo interior que não depende da outra pessoa. Reconciliação é relacional e exige disposição de ambos os lados. A Igreja distingue os dois.
O que Jesus disse sobre perdoar pessoas difíceis?
Em Mateus 18,21-22, Jesus instrui a perdoar “setenta vezes sete”, expressão que significa sem limite. Em Lucas 23,34, perdoou os próprios algozes enquanto estava sendo crucificado, antes de qualquer pedido de desculpa.
Como rezar para conseguir perdoar?
O Catecismo recomenda entregar a ferida ao Espírito Santo, que “transforma a ferida em compaixão e purifica a memória” (CIC, n. 2843). A oração pela pessoa que magoou, pedindo bênção, não punição, é um dos caminhos mais eficazes apontados pela tradição espiritual católica.
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