O leão está em vitrais de catedrais, nos brasões de dioceses, na arte sacra medieval, no símbolo de Veneza e no título dado a treze papas. Para o cristianismo, o leão tem um dos simbolismos mais ricos e precisos da tradição bíblica, com raízes no Antigo Testamento, desdobramento no Novo e presença na iconografia e na espiritualidade católica.
A primeira grande referência está no Gênesis. Ao abençoar o filho Judá antes de morrer, o patriarca Jacó profetiza:
“Judá é um filhote de leão. Meu filho, tu subiste com a presa. Ele se deita, se agacha como leão; como leoa, quem o fará levantar?” (Gênesis 49,9).
A imagem associa a tribo de Judá , da qual descenderiam Davi e, séculos depois, Jesus, à força, à liderança e a uma realeza que nenhum inimigo conseguiria abalar. Esse fio profético chega ao livro do Apocalipse, onde recebe sua formulação mais direta. Diante do trono celeste, um dos anciãos anuncia a João:
“Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos” (Apocalipse 5,5).
É a única vez na Bíblia em que Jesus é chamado explicitamente de Leão e o contexto é que ele vence, tem autoridade sobre o livro selado, inaugura o julgamento e a salvação. O Leão de Judá é Cristo Ressuscitado e vitorioso, soberano sobre a história.
Mas o mesmo Apocalipse, instantes depois, mostra João olhando para o Leão e vendo um Cordeiro. As duas imagens são inseparáveis: o poder do Leão e a mansidão do Cordeiro revelam a natureza de Cristo como aquele que vence pela entrega.
Santo Isidoro de Sevilha, Doutor da Igreja que viveu entre 560 e 636, dedicou passagens de sua obra enciclopédica às características do leão e ao que elas significam espiritualmente. Em sua descrição, o leão é o rei de todos os animais e sua coragem se mostra do rosto à cauda, sua resistência está na cabeça, sua força no peito. Quando cercados por caçadores, os leões olham para o chão a fim de não cederem ao medo. Dormem de olhos abertos e, quando caminham, apagam suas pegadas com a cauda para que os caçadores não possam segui-las.
Cada um desses traços foi lido pelos Padres como uma imagem espiritual da coragem diante da perseguição, a vigilância mesmo no repouso, a capacidade de não deixar rastro visível de fraqueza. Atributos que a tradição cristã reconheceu, com naturalidade, como reflexo da soberania de Cristo.

Na tradição iconográfica da Igreja Católica, o leão está ligado a São Marcos Evangelista. Padres da Igreja como Santo Irineu e São Jerônimo relacionaram as quatro figuras viventes das visões de Ezequiel (1,10) e do Apocalipse (4,7) – homem, leão, touro e águia – aos quatro evangelistas. São Mateus recebeu o homem; São Lucas, o touro; São João, a águia; e São Marcos, o leão.
O símbolo está ligado ao início do Evangelho de Marcos, que descreve São João Batista como uma voz que clama no deserto, imagem tradicionalmente identificada com o rugido do leão (cf. Marcos 1,3). O deserto era território do leão; a voz de João Batista era o rugido que convocava à conversão antes da chegada do Messias.
A tradição preservou ainda uma lenda que aprofunda essa associação. Conta-se que, numa viagem pelos arredores do Jordão, São Marcos e seu pai Arostalis foram surpreendidos por um leão e uma leoa. O pai, apavorado, ordenou que o filho fugisse. Marcos recusou, assegurou que Jesus os salvaria e começou a orar. Os dois animais caíram mortos e, por decorrência do milagre, o pai acreditou em Cristo.
Essa iconografia sobreviveu ao tempo e se enraizou na cultura. As relíquias de São Marcos foram levadas a Veneza no século IX, e desde então o leão alado tornou-se o símbolo da cidade, presente na Catedral de São Marcos (foto) e reconhecível no mundo inteiro como marca da identidade cristã veneziana.
A Bíblia também usa o leão com sentido inverso: não como imagem de Cristo, mas como alerta. São Pedro escreve:
“O diabo, vosso adversário, anda em derredor de vós como um leão que ruge, procurando alguém para devorar. Resisti-lhe, firmes na fé” (1 Pedro 5,8-9).
O mesmo animal que representa a força de Cristo representa aqui a ameaça do mal e a instrução é a mesma que o leão-Cristo exige: firmeza, vigilância, fé enraizada.
O leão como símbolo do Senhor convida à confiança e o leão como símbolo do adversário convida à atenção. Os dois juntos ensinam ao cristão que o mundo espiritual é real, que há um soberano e há um inimigo, e que a fé não é ingenuidade mas lucidez.
Treze papas escolheram o nome Leão. A devoção leonina carrega atenção redobrada na defesa da Igreja e cuidado especial com a dimensão social do Corpo Místico de Cristo. Leão Magno, no século V, foi o papa que saiu ao encontro de Átila para defender Roma. Leão XIII, no século XIX, escreveu a Rerum Novarum, fundando a doutrina social da Igreja moderna. O atual Pontífice, Papa Leão XIV, assume esse nome carregado de simbolismo teológico e a cada Leão, a Igreja rememora que seu pastor não governa com a força de quem serve.

Foto: Vatican Media
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