“Meu Senhor e meu Deus”. A confissão de São Tomé, arrancada do assombro de quem tocou as Chagas abertas do Ressuscitado, é uma das frases densas do Novo Testamento (cf. João 20,28). Ele é conhecido como alguém que duvidou, mas muito também se fala sobre ele ter expressado o que muitos também pensavam e assim serviu à missão de Jesus, para que outros também acreditassem.
O que aconteceu com ele após aquele encontro com o Cristo Ressuscitado é uma das histórias mais longas e menos conhecidas do apostolado cristão, que terminou, segundo a tradição da Igreja, dos historiadores antigos e da devoção de milhões de cristãos indianos, a milhares de quilômetros de Jerusalém, em uma cidade chamada Mylapore, no sul da Índia.
Seu nome em aramaico era Tau’ma, que significa gêmeo. Em grego, Dídimo. O Evangelho de João é o único que o cita com frequência, com um perfil distinto dos outros Apóstolos: é Tomé quem, quando Jesus decide voltar à Judeia após a morte de Lázaro, diante do risco real de ser apedrejado, diz aos demais: “Vamos também nós, para morrermos com ele” (João 11,16).
A cena que lhe valeu o apelido de “incrédulo”, porque precisava “ver pra crer”, está em João 20: ausente no primeiro encontro com o Ressuscitado, Tomé declara que só acreditará se puder ver e tocar as marcas dos pregos e da lança. Oito dias depois, Jesus aparece novamente, e se dirige diretamente a ele: “Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas crente” (João 20,27). Tomé toca e aquele toque o transforma para sempre.

Após a Ascensão e o Pentecostes, a tradição da Igreja, registrada por Eusébio de Cesareia no século IV, por São Jerônimo, por São Gregório de Nazianzo e por Santo Efrém da Síria, atribui a Tomé a evangelização das regiões orientais: a Pártia (atual Irã) e, depois, a Índia.
O Martirológio Romano, documento litúrgico oficial da Igreja, reconhece seu martírio na nação indiana. Segundo a tradição preservada tanto pela Igreja Católica quanto pelas Igrejas Orientais, Tomé teria chegado ao sudoeste da Índia por volta do ano 52 d.C., e desembarcou em Musiris (atual Kerala), onde batizou as primeiras famílias da região. Dali percorreu a costa e fundou comunidades cristãs que persistiram por séculos.
Os chamados “Cristãos de São Tomé”, hoje conhecidos como cristãos sírio-malabares e sírio-malankaras, afirmam descender diretamente dos fiéis batizados pelo Apóstolo. Quando os portugueses chegaram à Índia no século XVI, encontraram essas comunidades já estabelecidas e com uma tradição apostólica viva – o que confirmou para eles o que os relatos históricos sugeriam.
Segundo a tradição, Tomé foi martirizado em Mylapore, hoje um bairro da cidade de Chennai, capital do estado de Tamil Nadu, traspassado por lanças enquanto rezava, por volta do ano 72 d.C, e o corpo sepultado no mesmo local.
A veneração do túmulo começou imediatamente. Já em 390 d.C. há registros de um mosteiro no local e nos séculos IX e X, os árabes chamavam a cidade de Betumah, “a cidade de Tomé”. Marco Polo, ao visitar o local no século XIII, registrou em seu livro a existência de uma capela nestoriana sobre o túmulo e um mosteiro erguido pelos cristãos persas que ali haviam se estabelecido.
Quando os portugueses chegaram no século XVI, construíram uma basílica sobre o túmulo. Disseram ter encontrado a cripta do Santo, suas relíquias e um fragmento de uma das lanças com que foi martirizado. A estrutura atual da Basílica de São Tomé data de 1893, quando foi reconstruída em estilo neogótico pelos britânicos. A Basílica de São Tomé em Mylapore é um dos três únicos locais no mundo erguidos sobre o túmulo de um Apóstolo, ao lado da Basílica de São Pedro, no Vaticano, e da Catedral de Santiago de Compostela, na Espanha.
Na série The Chosen, São Tomé é interpretado pelo ator norte-americano Joey Vahedi, de ascendência persa e libanesa. A série acompanha sua vida durante o ministério de Jesus e, já nessa fase, detalhes visuais do personagem foram identificados pela base de fãs como referências à tradição cristã de que Tomé evangelizaria a Índia. Entre eles, um colar específico que o personagem usa na série.

Imagem: reprodução da Internet
Joey Vahedi também demonstrou carinho pelo público brasileiro e, no dia do jogo do Brasil contra Marrocos, na Copa do Mundo de 2026, publicou uma foto usando a camisa da Seleção Brasileira, gesto que circulou amplamente entre os fãs, já que o Brasil tem uma das maiores comunidades de seguidores da série no mundo.
A trajetória de Tomé é, em muitos sentidos, a mais radical entre os Apóstolos. Enquanto Pedro ficou em Roma, Paulo percorreu o Mediterrâneo e Tiago permaneceu em Jerusalém, Tomé foi para onde ninguém mais foi, além da fronteira do mundo conhecido pelo Império Romano, até o sul da Índia.
O homem que precisou tocar para crer chegou ao fim do mundo para fazer outros crerem sem ter tocado. É o paradoxo que define sua santidade, e que a Igreja celebra em 3 de julho, sua festa litúrgica no Calendário Romano.
“Bem-aventurados os que não viram e creram” (João 20,29). Essas foram as últimas palavras que Jesus lhe dirigiu. Tomé passou o resto da vida fazendo com que outros chegassem a essa bem-aventurança.
Basílica de São Tomé: túmulo do apóstolo na Índia atrai milhares de cristãos
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