Na Palestina do século I, adoecer tinha consequências que iam muito além do corpo. Certas enfermidades tornavam a pessoa ritualmente impura, proibida de participar da vida religiosa e social da comunidade. Outras geravam um julgamento moral imediato: as doenças eram vistas como punição de Deus pelo pecado próprio ou dos pais.
Foi nesse contexto que Jesus agiu de uma forma que surpreendeu a todos, pois Ele foi até os doentes, os tocou, os chamou pelo nome. Essa atitude não era subversiva para os padrões da época.
A lepra: é mencionada em dezenas de passagens, do Levítico aos Evangelhos, era uma das condições mais estigmatizantes da Antiguidade. A Lei de Moisés determinava que o leproso vivesse isolado, vestisse roupas rasgadas e gritasse “impuro, impuro!” para alertar quem se aproximasse (cf. Levítico 13,45-46). O contato físico com um leproso tornava impuro quem o tocasse.
É importante dizer que estudiosos e especialistas debatem até hoje se o termo hebraico tzaraat, traduzido como “lepra” na Bíblia, correspondia exatamente ao que hoje chamamos de hanseníase, ou se designava um conjunto mais amplo de doenças de pele. O que os textos deixam claro é o peso social e religioso que essa condição carregava.
A hemorragia: aparece pela mulher que havia sofrido fluxo de sangue por doze anos (cf. Marcos 5,25-34), vivia numa situação de impureza ritual permanente. Pela lei judaica, qualquer pessoa ou objeto que ela tocasse tornava-se igualmente impuro. Doze anos de isolamento social, de gastos com médicos, de vergonha. Ela se aproximou de Jesus por trás, escondida na multidão, e tocou Sua veste. Jesus parou. Perguntou quem O havia tocado. E, diante de todos, a chamou de “filha”, palavra que a reintegrava à comunidade.
A paralisia: o paralítico de Betesda, doente há 38 anos (cf. João 5,1-9), estava à beira da piscina de Siloé esperando que alguém o ajudasse a entrar na água. Ninguém havia feito isso em quase quatro décadas. Jesus perguntou: “Queres ficar curado?”. Ninguém perguntava o que esse homem queria.

Jesus ajuda o paralítico em Betesda. Imagem: Freedom Studio / Shutterstock.com
Em João 9,1-3, os discípulos perguntaram a Jesus sobre um cego de nascença: “Quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?“. A resposta de Jesus é direta e definitiva para o pensamento cristão: “Nem este pecou nem seus pais.” A doença não é necessariamente punição. Essa afirmação, no contexto cultural da época, era revolucionária.
O Catecismo da Igreja Católica preserva esse ensinamento: “A doença e o sofrimento sempre foram dos problemas mais graves que perturbam a vida humana” e a missão da Igreja inclui cuidar dos enfermos como continuidade do próprio ministério de Cristo (CIC §§ 1500-1506).
O que une as três histórias é o gesto de Jesus de ver o que os outros preferiam não ver. Ele atravessou a fronteira do preconceito, pois tocou o intocável, parou para a que era invisível, perguntou ao esquecido o que queria. Muitas pessoas carregam condições que não aparecem à primeira vista, de dores crônicas, limitações que não se veem, sofrimentos que a sociedade prefere ignorar ou minimizar. A Bíblia não oferece diagnósticos modernos para essas realidades.
“Estive doente e me visitastes” (Mateus 25,36).
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