Em 1325, Frei Peregrino Laziosi tinha 60 anos, um câncer avançado na perna e uma sentença médica: a amputação seria no dia seguinte. Os remédios disponíveis no século XIV já não faziam efeito e a ferida era maligna, infecciosa, crescente e não havia mais o que tentar. Naquela noite, com dores intensas, ele se arrastou até uma capela no interior da Basílica e se prostrou diante de um afresco de Cristo crucificado, onde permaneceu por horas em oração pedindo forças para o que viria pela manhã.
Ele adormeceu ali mesmo e teve uma visão de Cristo, que se desprendeu da cruz, foi até ele, tocou sua perna e voltou para a cruz. Quando os frades o foram acordar para avisá-lo de que o médico havia chegado, não o encontraram no quarto, pois ele estava adormecido diante do Santíssimo. Ao ser despertado, relatou o que havia visto. O médico, então. começou a retirar as faixas da perna e parou, pois a ferida havia desaparecido completamente.
Peregrino olhou para a própria perna curada, levantou e declarou que não era um sonho e Cristo havia descido da cruz e tocado nele.
Peregrino Laziosi nasceu em Forlì, norte da Itália, em 1265, filho único de família nobre. Jovem rebelde e idealista, integrava os Gibelinos, facção ligada ao imperador que se opunha ao Papa. Em 1283, São Filipe Benizi chegou a Forlì em missão de pacificação. Durante um discurso pela paz, Peregrino o agrediu com socos e bofetadas.
Mas São Filipe respondeu com perdão e serenidade. e aquele gesto atravessou algo em Peregrino que nenhum argumento teria alcançado. Ele foi atrás do frade para pedir desculpas e foi recebido com amor. A partir desse acontecimento, começou uma das conversões mais completas da hagiografia medieval. Peregrino buscou Maria em oração, ingressou na Ordem dos Servos de Maria em Siena, recebeu o hábito preto que recorda a viuvez da Virgem e voltou a Forlì como frade. O mesmo homem que havia semeado conflito, agora dedicado aos pobres, à penitência e à oração intensa era, para todos ao redor, um exemplo de vida santa.
O milagre da cura aconteceu em 1325 e Peregrino viveu ainda vinte anos, intensificando o serviço aos pobres e enfermos. Morreu em 1345, com 80 anos, vítima de febre alta. No momento de sua morte, seu corpo exalava um perfume que tomou toda a Igreja e os arredores. Os habitantes da região acorreram em tal número que as portas da cidade não conseguiram ser fechadas. Já no dia seguinte, os milagres começaram a ser atribuídos à sua intercessão.
Em 1726, Papa Bento XIII o canonizou com o título de “o santo protetor contra o mal do câncer”, após o reconhecimento de três milagres: a cura de um menino paralítico, de uma religiosa e de um sacerdote, sendo os dois últimos doentes de câncer.
Seu corpo intacto é venerado até hoje na Basílica dos Servos de Maria em Forlì, Itália, e passados quase sete séculos, ainda apresenta alguns tecidos, músculos, cabelos, unhas e pele. A sua festa é celebrada em 4 de maio.
No Brasil, os Servos de Maria celebram a Missa da Saúde em honra de São Peregrino todos os dias 4 de cada mês, nas comunidades onde estão presentes: no Acre (Sena Madureira e Rio Branco), no Rio de Janeiro (Teresópolis e na capital), em São Paulo (São José dos Campos e na capital), no Paraná (Curitiba) e em Santa Catarina (Turvo). Uma relíquia de seu manto é venerada na Igreja de Nossa Senhora das Dores, no Ipiranga, em São Paulo.

Igreja de São Peregrino em São José dos Campos (SP)
No Dia Mundial da Saúde da Pele, São Peregrino é um intercessor que conheceu a progressão de uma doença maligna, a sentença médica sem retorno e a noite longa antes de qualquer resposta para a qual ele pediu forças para enfrentar.
Como descreve a tradição da Ordem dos Servos de Maria, o sofrimento pode ser lugar de encontro com Deus, quando vivido com fé, abandono e confiança. Quem hoje enfrenta um diagnóstico difícil, um tratamento longo ou a incerteza sobre o próprio corpo tem em São Peregrino num intercessor que viveu isso antes de qualquer um.
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