“Minha vida é muito melhor depois do acidente”: Kamila Florêncio, a jovem católica que transforma dor em testemunho nas redes sociais

Em 8 de dezembro de 2021, Kamila Aparecida Duarte Florêncio tinha 15 anos e estava no banco de trás do carro com os pais, a caminho de uma Missa em Pederneiras, cidade vizinha a Bauru, interior de São Paulo, quando o carro em que estava com a família capotou várias vezes e, logo após o acidente, ela já percebia e que não sentia nada do peito para baixo.

O diagnóstico foi uma fratura na vértebra C7, com tetraplegia incompleta. Kamila ficou 38 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), foi entubada duas vezes, precisou de sonda alimentar por 20 dias. Vieram depois uma trombose, uma pneumonia e complicações pulmonares graves. A alta hospitalar aconteceu em 14 de fevereiro de 2022, mais de dois meses após o acidente.

Kamila agora tem 20 anos e cursa o primeiro ano de Psicologia, participa ativamente da sua comunidade paroquial em Bauru, usa as redes sociais para evangelizar e recebe comentários de pessoas que dizem que estavam prestes a desistir antes de encontrar o seu perfil. Ela adora se cuidar, se maquiar, estar com os amigos e a serviço. É uma escolha sustentada por uma força que, segundo ela, vem de Deus.

Nesta entrevista ao IDe+, Kamila fala sobre como a vida ficou mais ativa depois do acidente, sobre a conversa honesta que tem com Deus, sobre os sonhos que alimenta e muito mais.

“Minha vida é muito melhor depois do acidente”

A primeira coisa que chama atenção em Kamila é a ausência de amargura e desânimo, mesmo sem romantizar o acontecido. Ela não reclama do que foi posto em seu destino e tem convicção que tudo está sendo preparado para acontecer da melhor maneira e na hora de Deus.

“Algo que eu sempre gostei foi de viver. Minha rotina sempre foi ir para a Igreja, ir para a escola e ir para casa. Mas eu sempre falo para todo mundo que sou muito mais ativa e minha vida é muito melhor depois que sofri meu acidente.”

Ela cursa Psicologia e está muito animada para ajudar as pessoas. “Estou amando. Gosto muito de conhecer mais sobre as coisas. Sou apaixonada por estudar, por conhecer mais. Conseguir estar presente e fazendo as coisas que amo é o que me faz feliz”.

Se arrumar também é uma forma de fé

Quem acompanha o perfil de Kamila nas redes nota que ela aparece sempre sorridente, bem arrumada, com maquiagem que, para ela, é parte de quem ela é.

“Sou apaixonada por me arrumar. E não é pelos outros, é por mim mesma. Eu gosto de ter essa feminilidade, de me sentir bonita também. Isso faz eu me sentir bem, me sentir feliz. Eu sempre quero estar bem arrumada para ir ao encontro de Jesus”.

O acidente que aprofundou raízes

Sobre a relação com a Igreja, Kamila fala que é sua base: “Hoje eu tenho certeza que a fé faz parte da minha identidade. Não tem como separar essas duas partes. Eu não me vejo sem fé”.

Ela conta que o acidente não abalou a relação com a comunidade e pelo contrário. O acidente aprofundou essas raízes com a Igreja e ela fala com entusiasmo dos amigos que o Senhor colocou no caminho depois do acidente com uma imagem precisa e afetiva:

“Vejo esses jovens e amigos como aquelas pessoas que desceram o jovem paralítico para que Jesus o curasse. Hoje eu posso falar que existem pessoas que me desceriam para que Jesus curasse.”

As redes sociais como extensão do testemunho

Quando saiu do hospital, Kamila já sabia o que queria fazer. “Desde quando saí do hospital, sempre tive esse desejo de testemunhar sobre tudo que tinha acontecido, tudo que Deus fez na minha vida. As redes sociais foram o caminho mais rápido e mais fácil.”

Ela rejeita a visão de que as telas são inevitavelmente ruins.

“Não são só as telas o problema, são o que as pessoas querem passar ali. Eu evangelizo nas redes sociais e os comentários que recebo são de pessoas que dizem: ‘Eu estava quase desistindo.’ Quando a gente usa algo para o bem, aquilo passa a ganhar um novo valor.”

Ela também cita São Carlos Acutis, que fez um blog sobre os milagres eucarísticos e ali também alcançou muita gente.

Os sonhos de Kamila

Na internação, com menos de um ano para completar 15, Kamila tomou a decisão de que dançaria a valsa com o pai. A equipe de fisioterapia da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Bauru abraçou o sonho com ela. Em outubro de 2022, com o aparelho Kafo, desenvolvido pela Apae para pacientes sem força suficiente no quadríceps para se manterem de pé, ela dançou com o pai diante de cerca de 100 pessoas entre familiares e médicos que acompanhavam seu tratamento. Mas há ainda muitos sonhos a realizar:

“Tenho o sonho de me formar como psicóloga para ajudar as pessoas, de casar e ter uma família santa, de viajar como missionária e ir para as nações anunciando o nome do Senhor. Tenho o grande sonho de conseguir voltar a andar e tenho certeza que Deus já está preparando isso para o dia em que eu estiver preparada.”

“Essa força não vem da gente”

Sobre a força que tanto impressiona seus seguidores, Kamila conta que sabe de onde vem.

“Eu costumo dizer que essa força vem de Deus. Eu nunca havia sentido uma paz tão grande como a que senti quando sofri meu acidente. Era uma certeza de que Deus estava no controle. Muitas pessoas acharam que eu iria falecer, mas eu nunca tive isso no meu coração, eu nunca senti que iria falecer. Eu sempre tive uma paz enorme. Eu não sou forte. Uma pessoa que sofreu um acidente há 15, 20 anos também não é forte, porque essa força não vem da gente. Eu tenho certeza que se a força fosse minha, eu teria desistido.”

Kamila tem muita lucidez sobre os próprios limites e sobre a vida ao redor, com uma maturidade rara. Antes do acidente, Kamila conta que tentava usar só palavras bonitas na oração, mas hoje é diferente.

“Hoje não tenho mais máscaras com Deus. Falo com o Senhor como se estivesse falando com o meu melhor amigo. Abro mesmo o meu coração. Tem dias que eu falo: ‘Senhor, tá difícil, me ajuda a passar por isso’. Nem sempre conseguimos ter fé 100%, mas fé temos que ter. E falando com o Senhor, eu consigo aliviar todos os fardos que estão pesados. Creio que essa seja a chave que virou na minha vida.”

O que ela diria para quem está no limite

Kamila evangeliza pelo exemplo e também tem palavras de amor para quem mais precisa.

“Quando nós enfrentamos algo que, com as nossas forças, está impossível de aguentar, devemos clamar ao Senhor que nos dê força, a força que vem do alto. É olhar para a Cruz, olhar para Jesus e falar: ‘Eu não consigo sozinha, caminha comigo’. O Senhor está sempre ao nosso lado. E Ele mesmo diz: ‘Vinde a mim os cansados e Eu vos aliviarei, porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve’. É se unir a Ele. Quando tudo parece sem saída, quando tudo parece difícil, é aí que precisamos nos unir mais a Ele”.

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