O demônio do meio-dia: a preguiça que ameaça a sua vida espiritual

O demônio do meio-dia: a preguiça que ameaça a sua vida espiritual

Um monge está sentado diante do livro sagrado, por volta do meio-dia, em algum ponto do deserto do Egito, no fim do século IV. Ele lê uma linha e boceja, esfrega os olhos, espia a janela, imagina que alguém está prestes a bater à porta. Volta ao texto, avança mais um pouco, encosta a cabeça na mão e cochila, até que a fome o obrigue a se levantar. Quem descreveu a cena, com essa precisão, foi Evágrio Pôntico, um dos Padres do Deserto. Ele estava retratando aquele que considerava o mais perigoso de todos os inimigos da alma: a acídia.

Dezesseis séculos depois, a palavra sumiu do vocabulário e a preguiça tem até data: todo 10 de agosto, sem nenhum instrumento oficial e com a leveza de uma brincadeira nascida nas redes sociais, celebra-se o Dia da Preguiça, convite bem-humorado a não fazer absolutamente nada.

Descansar, é bom que se diga, não tem nada de errado: o próprio Deus repousou no sétimo dia, e Jesus mandava os discípulos se retirarem para um lugar deserto a fim de recuperar as forças. O problema é outro, e é o que Evágrio enxergava por baixo da sonolência daquele monge. Existe uma preguiça que adoece a alma muito antes de alcançar o corpo.

O que os antigos chamavam de acídia

Evágrio foi o primeiro a estudá-la a fundo, e lhe deu um apelido que pegou: “demônio do meio-dia”. A imagem vinha de um versículo dos Salmos (91,6) que, na antiga versão grega lida pelos monges, falava literalmente de um mal que ataca em plena luz. E o ataque, notou Evágrio, tinha hora certa: cercava o monge do fim da manhã ao começo da tarde, quando o cansaço aperta e as horas seguintes se arrastam, monótonas, como se o dia tivesse cinquenta horas. Séculos mais tarde, ao organizar a lista dos pecados capitais, o Papa São Gregório Magno acomodou a acídia sob o nome que hoje usamos: preguiça. O Catecismo guardou os dois termos lado a lado e a grafa acídia ao registrar, no parágrafo 1866, a preguiça entre os sete vícios capitais.

Papa Francisco explicou: “a preguiça é mais um efeito do que uma causa”, disse em Quarta-feira de Cinzas, 14 de fevereiro de 2024, na Sala Paulo VI, dedicando toda a catequese da audiência geral a esse vício de nome esquisito. A raiz da coisa, explicou, está numa palavra grega que significa, ao pé da letra, “falta de cuidado”. A pessoa fica indolente porque, antes disso, algo esfriou por dentro.

Os sintomas são conhecidos de qualquer um que já tentou levar a fé a sério por um tempo. As coisas de Deus começam a dar tédio, a oração, que um dia aquecia o peito, passa a soar como tempo perdido a pessoa pode querer faltar à Santa Missa. As devoções são largadas sem que se saiba direito quando e há sempre uma desculpa à mão, quase sempre uma frase verdadeira empregada do jeito errado: “Deus entende”, “o que vale é o coração”. Na catequese, Papa Francisco tocou no ponto que o leitor de hoje reconhece na hora: a acídia se parece muito com a depressão, e por isso pede cuidado, e não julgamento.

O Catecismo trata dela justamente no capítulo sobre a oração. A acídia é descrita como “uma forma de depressão” ligada ao afrouxamento da ascese, à queda da vigilância e à negligência do coração (nº 2733). É na vida de oração que o “demônio do meio-dia” costuma dar o primeiro bote.

Caderno contra a névoa

O que fazer diante disso? Papa Francisco chamou o principal remédio de “a paciência da fé”: a coragem de permanecer onde se está em vez de fugir para outro lugar, de acolher a presença de Deus no próprio aqui e agora, ainda que ele ande cinzento. Os monges diziam que a cela era a melhor mestra da vida espiritual, pois ninguém amadurece trocando de lugar o tempo todo. Amadurece quem fica e é fiel no pouco. A Escritura chega ao mesmo destino pela porta da diligência: “Vai, ó preguiçoso, ter com a formiga, observa seu proceder e torna-te sábio”, diz o livro dos Provérbios (6,6). A formiga não espera a inspiração para trabalhar. Contra a acídia funciona assim: a vontade quase sempre vem depois do gesto, raramente antes dele.

Ao lembrar que nem os santos escaparam desse vício, Papa Francisco observou que muitos deles deixaram registrada a batalha nas páginas de seus diários, as noites em que tudo parecia escuro. Os santos, portanto, escreviam e sobretudo nos piores dias.

Como começar

Ao fim do dia, reserve alguns minutos para anotar, em poucas linhas, como andou a sua relação com Deus: uma graça daquela jornada, uma oração que ficou para trás, um desânimo que veio e passou. Funciona porque a acídia se alimenta da sensação de que nada acontece na vida da fé; posto no papel, o dia ganha contorno, e fica mais fácil enxergar onde a rotina esfriou e o que a reaquece. Relidas depois de algumas semanas, as anotações mostram padrões, os horários em que a preguiça costuma bater, os hábitos que sustentam a oração, e vão transformando boas intenções em uma rotina mais constante e proveitosa. 

Um dica para acompanhar essa rotina longe da acídia é contar com o apoio do Diário Espiritual. Clique aqui e saiba mais sobre a edição 2027 do Diário Espiritual da Associação Evangelizar é Preciso.

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