Almas no purgatório: afresco do artista Lorenzo Peretti em igreja na Itália.
A pergunta passa por gerações, culturas e séculos: o que acontece conosco depois que morremos? A Igreja tem um ensinamento claro, baseado na Sagrada Escritura, na Tradição e no Magistério, e esse ensinamento fala de destinos e não de fim, pois a alma não morre.
O ponto de partida está no Credo, a oração que os cristãos recitam há dois milênios na Santa Missa. Quando dizemos “creio na ressurreição da carne, na vida eterna”, afirmamos algo que distingue o cristianismo de quase todas as filosofias que tentam responder à mesma pergunta: a pessoa humana não se encerra com a morte do corpo. O bacharel em Filosofia e Comunicação e especialista em Ética Tiago Correia da Silva explica que antes mesmo de pensar na ressurreição dos corpos, é preciso compreender o que acontece com a alma.
“É importante lembrar que não só nossa alma tem um destino imortal, mas também nosso corpo. Esse ponto pode não parecer tão intuitivo, no entanto é uma das verdades da nossa fé, que repetimos todos os domingos na Santa Missa na oração do Creio”, explica Tiago.
O fundamento dessa crença está na ressurreição de Jesus Cristo. São Paulo escreve aos romanos: “Se o Espírito dAquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós” (Rm 8,11). A ressurreição de Cristo é a garantia de uma promessa ainda por se cumprir.
O Catecismo da Igreja Católica explica o ocorre no momento da morte. No parágrafo 1022, lê-se: “Cada homem recebe em sua alma imortal a retribuição eterna a partir do momento da morte, num Juízo Particular que coloca sua vida em relação à vida de Cristo, seja por meio de uma purificação, seja para entrar de imediato na felicidade do Céu, seja para condenar-se de imediato para sempre”.
O Catecismo traz ainda, no mesmo bloco de ensinamentos, uma frase que serve de síntese desse juízo: “No entardecer de nossa vida, seremos julgados sobre o amor”. É uma frase de São João da Cruz, retomada pelo Catecismo para traduzir o critério pelo qual a vida será avaliada.
A partir desse encontro, a Igreja ensina que existem três possibilidades:
Ao longo da história, santos cujas experiências foram examinadas e aprovadas pela Igreja deixaram relatos que iluminam esses mistérios.
Santa Faustina Kowalska, canonizada por João Paulo II no ano 2000 e considerada a maior mística do século XX, deixou no seu Diário um relato de uma visão que teve ainda novata. Ela descreveu ter sido levada a “um lugar enevoado cheio de fogo”, onde havia “uma grande multidão de almas sofrentes”. Quando perguntou às almas qual era o seu maior tormento, elas responderam que o maior sofrimento era a saudade de Deus.
Para quem conhece o ensinamento do Catecismo sobre o Purgatório, a resposta de Santa Faustina mostra a imagem do que o Magistério já ensina: a pena principal do Purgatório é o anseio por Deus, que se sabe próximo mas ainda não se alcança plenamente.
São Pio de Pietrelcina, canonizado em 2002, era tão consciente do peso eterno de cada alma que, em uma carta de 1914, escreveu que Deus desejava conduzi-lo “pelo caminho da abnegação e da Cruz” e viveu esse caminho como participação na redenção de outros, inclusive dos que já haviam partido. São João Paulo II, em sua homilia de canonização, ressaltou que sem essa referência constante à Cruz não se compreende a santidade de Padre Pio: cada sofrimento era, para ele, uma oferta com valor eterno.
A vida eterna, porém, não é apenas a sobrevivência da alma. A fé cristã ensina a ressurreição dos corpos na Parúsia, a vinda gloriosa de Cristo no fim dos tempos. Tiago Correia lembra que a ressurreição de Cristo é o espelho da ressurreição dos fiéis:
“Para não deixar dúvidas desse fato, o evangelista São Lucas narra a passagem dos discípulos de Emaús, na qual o Cristo já ressuscitado faz uma refeição com esses discípulos, em demonstração concreta que partilhava com eles de um corpo (Lucas 24).”
No Evangelho de São João, o próprio Jesus convida Tomé a tocar as marcas da Paixão:
“Introduz aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos. Põe a tua mão no meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de fé” (Jo 20,27).

A ressurreição dos corpos, porém, não é imediata. Tiago Correia explica que ela “está localizada no plano da salvação junto à vinda gloriosa de Nosso Senhor no fim dos tempos”, o que a teologia chama de Parúsia. São João, no Evangelho, descreve os dois destinos dessa ressurreição final:
“Os que tiverem praticado o bem, para uma ressurreição de vida, e os que tiverem praticado o mal, para uma ressurreição de condenação” (Jo 5,29).
O ensinamento da Igreja sobre a vida após a morte é um convite a viver de outra forma agora: “A mensagem do Juízo Final é apelo à conversão enquanto Deus ainda dá aos homens o tempo favorável, o tempo da salvação” (CIC, §1041).
Praticar o amor ao próximo, como Jesus resume em Mateus 22,39, é, segundo a fé cristã, a forma concreta de construir, no tempo, o que terá peso na eternidade.
Fontes:
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