No sexto mês da gravidez de Isabel, sua parente Maria chegou de Nazaré até as montanhas da Judeia para visitá-la. Assim que Isabel ouviu a saudação, o filho em seu ventre estremeceu, e ela exclamou:
“Bem-aventurada aquela que acreditou, porque se cumprirá o que lhe foi dito da parte do Senhor” (Lucas 1,45).
Foi uma proclamação inspirada pelo Espírito Santo e é a primeira grande chave para entender quem é Maria: Bem-Aventurada não por milagres que tivesse realizado em vida, mas porque acreditou radicalmente em Deus e aceitou fazer parte de um plano que ainda não conseguia ver inteiro.
No Evangelho de Lucas, “Bem-Aventurada” é o primeiro de uma série de macarismos, que são as proclamações de felicidade e graça dirigidas àqueles que vivem em conformidade com o projeto de Deus. Quando Isabel proclama Maria dessa forma, reconheceu que a jovem de Nazaré à sua porta já carregava o Filho de Deus e que aquilo havia acontecido precisamente porque Ela havia dito sim. Sobre esse tema, leia: A “pressa de Maria”.
A bem-aventurança, nesse sentido bíblico, é tanto uma condição presente quanto uma promessa futura. Maria mesma o entendeu assim. No cântico que respondeu a Isabel, o Magnificat, ela foi além:
“De agora em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada, pois o Poderoso fez grandes coisas em meu favor; santo é o seu nome” (Lucas 1,48-49).
Ela estava reconhecendo que a origem de tudo era Deus e que ser chamada Bem-Aventurada era testamento das obras divinas, não das próprias.
Para entender a bem-aventurança de Maria, é preciso voltar ao momento anterior à Visitação: a Anunciação. O Anjo Gabriel a saúda com uma palavra que, no grego original do Evangelho, não é “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo” (Lucas 1,28). A expressão “cheia de graça” indica que Maria já Se encontrava em uma relação singular com Deus antes mesmo de receber o anúncio.

“Como se fará isso, pois não conheço homem?” (Lucas 1,34). E quando o Anjo responde, Ela aceita: “Eis a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lucas 1,38). Na encíclica Redemptoris Mater, de 1987, São João Paulo II descreve esse momento como o instante em que Maria Se entrega a Deus pela fé e a expressão de Isabel em Lucas 1,45 como “uma chave” que abre o acesso à realidade íntima de Maria.
São João Paulo II, na mesma encíclica, recorre à Constituição Dogmática Lumen Gentium do Concílio Vaticano II para descrever o que viria a seguir: Maria “avançou na peregrinação da fé, mantendo fielmente a união com o Seu Filho até à Cruz”. A expressão “peregrinação da fé” garante uma fé vivida, testada e sustentada ao longo de uma vida inteira.
Há momentos no Evangelho em que essa fé foi colocada à prova, como na fuga para o Egito, a perda de Jesus no templo aos doze anos, os anos de vida pública em que Jesus não estava sob o mesmo teto. E, sobretudo, o Calvário, onde Maria estava de pé, ao lado da Cruz de Seu filho (João 19,25), sem recuo e sem abandono. É por isso que a encíclica retoma Lucas 1,45 aos pés da Cruz: “Feliz daquela que acreditou” é aplicado ali também, como se a bem-aventurança só pudesse ser plenamente compreendida à luz de tudo que ela atravessou.
Padre Adilton, da Arquidiocese de Salvador, que é doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana explica:
“A Virgem Maria é Bem-Aventurada não porque fez milagres em sua vida histórica, não porque tinha visão beatífica. Maria é Bem-Aventurada porque acreditou radicalmente em Deus e não buscou fazer sua própria vontade, mas a vontade de Deus. Maria peregrinou na fé e, porque acreditou, o Verbo de Deus se fez carne nela. A salvação entrou em nossa história porque Maria acreditou nas promessas de Deus, e, crendo, a chamamos Bem-Aventurada.”
A proclamação de Maria como Bem-Aventurada está entre as verdades mais antigas da fé cristã. O título Theotókos (Mãe de Deus) foi definido no Concílio de Éfeso, em 431, e desde então a Igreja tem interpretado a bem-aventurança de Maria à luz desse reconhecimento: Ela é Bem-Aventurada porque gerou o Filho de Deus, e O gerou porque acreditou.
O Catecismo da Igreja Católica retoma esse fio ao tratar da Anunciação: foi na fé de Sua humilde serva que o Espírito Santo encontrou o acolhimento que aguardava para realizar a Encarnação. A salvação entrou na história humana por meio de um sim, pronunciado por uma jovem de uma cidade periférica da Galileia que não tinha outra credencial senão a abertura total ao plano de Deus. É por isso que todas as gerações a chamam Bem-Aventurada.
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