O termo aparece nos Atos dos Apóstolos, nas cartas de São Paulo e no debate de teólogos há dois milênios. Mas poucos sabem exatamente o que significa: glossolalia, do grego glossa (língua) e lalein (falar), é o dom de falar em línguas, reconhecido pela Igreja Católica como um autêntico carisma do Espírito Santo.
O primeiro registro bíblico está em Atos 2. Quando o Espírito Santo desceu sobre os discípulos reunidos no Cenáculo, pessoas vindas de diferentes regiões do mundo ouviam os apóstolos “falar na própria língua” (At 2,6). Papa Francisco, em catequese publicada no Vatican.va em 19 de junho de 2019, descreveu o fenômeno como a palavra dos apóstolos tornou-se “compreensível, como se fosse traduzida simultaneamente em todas as línguas”. Para o Pontífice, trata-se “da linguagem da verdade e do amor, que é a língua universal.“
Na Primeira Carta aos Coríntios, Paulo dedica três capítulos inteiros ao tema dos carismas, e trata a glossolalia com seriedade e critério. Ele a reconhece como dom legítimo: “O apóstolo não despreza o dom da glossolalia, carisma de oração útil para a relação pessoal com Deus, e reconhece-o como um autêntico carisma”, afirma a Instrução Iuvenescit Ecclesia, do Dicastério para a Doutrina da Fé.
São Paulo estabelece ainda uma hierarquia: o dom de profecia, que edifica a comunidade, é mais útil que a glossolalia numa assembleia.
“Quem fala em línguas, edifica-se a si mesmo, mas quem profetiza, edifica a assembleia” (1Cor 14,4). E é direto: “Numa assembleia, prefiro dizer cinco palavras com a minha inteligência, para instruir também os outros, do que dez mil, em línguas” (1Cor 14,19).
Por isso, São Paulo estabelece regras precisas: nas reuniões comunitárias, o dom de línguas exige interpretação, ordem e discernimento. Sem isso, causa confusão em vez de edificação.
O Papa Leão XIV, na homilia de abertura do Capítulo Geral dos Agostinianos em 1 de setembro de 2025, evocou a questão ao citar Santo Agostinho. O Doutor da Igreja respondera à pergunta de por que o sinal extraordinário de Pentecostes não se repete da mesma forma hoje:
“No início, cada fiel falou todas as línguas. Agora, o conjunto dos crentes fala em todas as línguas. Por isso, também agora todas as línguas são nossas, pois somos membros do corpo que fala” (Sermão 269,1).
A resposta aponta para uma leitura eclesial do dom: o que se manifestou de forma extraordinária no início da Igreja, realiza-se hoje de forma coletiva no próprio Corpo de Cristo.
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