São Francisco de Assis na Península Arábica: os eventos que marcam 800 anos de um legado que atravessa fronteiras

São Francisco de Assis na Península Arábica: os eventos que marcam 800 anos de um legado que atravessa fronteiras

Em meados de setembro de 1219, um homem de hábito marrom e descalço pediu ao cardeal Juan Pelagio, delegado pontifício da Quinta Cruzada, permissão para cruzar as linhas de batalha no delta do Nilo. Lá do outro lado estava o exército do sultão al-Kamil, e o campo cristão acabara de sofrer uma derrota. A permissão foi concedida com ceticismo e Francisco de Assis e um companheiro, frei Iluminado, avançaram em direção às tropas inimigas. Foram detidos, maltratados e levados, por fim, à presença do sultão.

O que aconteceu a seguir não produziu nenhuma conversão, nem encerrou a guerra e não chegou a ser registrado pelos cronistas da época. Mesmo assim, o episódio atravessou oito séculos e foi o fio condutor das comemorações que marcaram os 800 anos da morte de Francisco no coração da Península Arábica, em outubro de 2026.

Quem era Francisco antes do encontro

Giovanni di Pietro di Bernardone nasceu em 1182 em Assis, na Úmbria italiana, filho de um comerciante abastado de tecidos. O pai, que esteve na França durante o nascimento do filho, o batizou Francisco em homenagem ao país que amava. O jovem cresceu entre festas, gastos extravagantes e sonhos de cavalaria. Em 1202, alistou-se como soldado na guerra entre Assis e Perúgia, foi capturado e ficou preso por cerca de um ano até ser resgatado. A prisão, seguida de doença, foi o primeiro deslocamento de uma trajetória que viria a mudar de direção de forma radical.

Segundo a tradição franciscana, a conversão chegou aos poucos. Em um encontro com um mendigo na estrada, uma parada numa capela abandonada de São Damião onde ouviu uma voz pedindo para “restaurar a Igreja”, a ruptura pública com o pai, que deserdou o filho diante do bispo de Assis.

Francisco devolveu as roupas que vestia, abriu mão da herança e começou a viver em comunidade com outros jovens que aderiram ao mesmo projeto. A Ordem dos Frades Menores foi formalmente aprovada pelo Papa Honório III em 1223. Em 1224, em retiro no Monte Alverne, Francisco recebeu os estigmas nas mãos, nos pés e no lado. Morreu em 3 de outubro de 1226, aos 44 anos, na Porciúncula, perto de Assis, cercado pelos discípulos.

O que aconteceu em Damieta

Quando Francisco chegou ao Egito em agosto de 1219, os cruzados sitiavam Damieta havia meses. Não para combate, mas ele queria chegar aos muçulmanos, algo que havia tentado antes sem êxito. O sultão Malik al-Kamil, sobrinho de Saladino, recebeu os dois frades com cortesia, mesmo contrariando o conselho de seus dignitários, e ouviu Francisco anunciar Cristo abertamente. Ele não se converteu e tampouco ordenou a morte dos visitantes, como seria usual com espiões capturados em zona de guerra. Após alguns dias, mandou os dois de volta ao campo cristão em segurança.

Francisco voltou sem ter convertido ninguém, mas a Regra que ele redigiu depois da viagem trouxe um capítulo específico sobre os frades que vivessem em terras islâmicas: não deveriam provocar disputas, mas “submeter-se a toda criatura humana por amor a Deus” e, quando chegasse o momento certo, “proclamar a palavra de Deus.” A tradição atribui ao sultão uma autorização para que os frades circulassem livremente por seus territórios, o que abriu caminho para a presença franciscana no Oriente Médio. Em 1342, o Papa Clemente VI instituiu formalmente a Custódia da Terra Santa, administrada pelos franciscanos até hoje, com cerca de 300 frades e 70 santuários.

O legado no Golfo, oito séculos depois

É dentro dessa história que se situam os eventos de outubro de 2026. Papa Leão XIV declarou um Ano Jubilar Franciscano, que vai de 10 de janeiro de 2026 a 10 de janeiro de 2027. Em Assis, entre fevereiro e março, os restos mortais de Francisco foram exibidos ao público pela primeira vez, atraindo cerca de 400 mil pessoas à Basílica. As celebrações se espalharam por vários continentes.

Na Península Arábica, as comemorações foram organizadas pelo Vicariato Apostólico da Arábia do Sul, em parceria com a Embaixada da Itália nos Emirados e o Instituto Italiano de Cultura, com patrocínio do Comitê para as Comemorações do oitavo centenário. O vicariato abrange Emirados Árabes Unidos, Omã e Iêmen, e contava, em 2022, com cerca de 1 milhão de católicos numa população de 45 milhões, fiéis provenientes de dezenas de países que celebram a missa em inglês, árabe, malaiala, tâmil, tagalo e coreano, entre outras línguas.

O evento de abertura aconteceu em 19 de outubro de 2026, no Instituto Italiano de Cultura em Abu Dhabi, com o título “Aniversário de 800 anos do Trânsito de São Francisco de Assis: Um legado de Assis para os Emirados.” Participaram o vigário apostólico Paolo Martinelli, o embaixador italiano Lorenzo Fanara, o padre Stefano Luca, diretor do Escritório de Diálogo Inter-religioso e Ecumênico do Vicariato, o professor Roberto Catalano, do Instituto Universitário Sophia, e o xeique Ali bin Abdullah Al Mualla, artista visual e engenheiro emiradense.

Martinelli centrou sua fala na trajetória pessoal do santo: Francisco “não nasceu homem de paz” e era fascinado pelas ordens de cavalaria, “mas tornou-se um aprendendo com seus fracassos, com o horror da guerra que vivenciou.” A partir do encontro com Cristo, tornou-se “um homem de paz e reconciliação, de misericórdia, um construtor de pontes.” O padre Luca acrescentou que, além das imagens de Francisco como filantropo ou ambientalista, o que o define é ser “um homem apaixonado por Deus” que ainda hoje testemunha como “a religião, a espiritualidade e a sociedade podem se enriquecer mutuamente.”

A programação no Golfo continua ao longo de outubro e novembro. Em 22 de outubro, sacerdotes, religiosos e líderes pastorais de todo o Vicariato se reúnem na Catedral de São José, em Abu Dhabi, para o “Dia de Formação AVOSA”, com reflexões sobre o papel das Escrituras na vida de Francisco e sobre “construir pontes de diálogo no espírito de Assis.” Em Omã, nos dias 29 e 30 de outubro haverá sessões sobre “São Francisco e o Sultão” em Mascate, e nos dias 5 e 6 de novembro, duas conferências sobre “São Francisco sob a ótica de Giotto.”

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