São João Paulo II deixou aos jovens três conselhos que até hoje merecem toda atenção: não se contentar com a mediocridade, não ter medo de ser santo e colocar a Eucaristia no centro da vida. As três orientações aparecem em textos que ele escreveu e pronunciou para a juventude no Grande Jubileu do Ano 2000, quando mais de dois milhões de pessoas, a maioria jovens, se reuniram com o Papa na esplanada de Tor Vergata, em Roma.
A Igreja celebra a memória de São João Paulo II em 22 de outubro. A data recorda o domingo de 1978 em que ele iniciou solenemente seu ministério como Papa, com um apelo que marcaria todo o pontificado: “Não tenhais medo!”. Foi João Paulo II quem criou as Jornadas Mundiais da Juventude, cuja primeira edição aconteceu em Roma, em 31 de março de 1985, e que desde então reúnem multidões em diferentes cidades do mundo.
Na noite de 19 de agosto de 2000, durante a vigília de Tor Vergata, o Papa já idoso e fragilizado pela doença não escondeu dos jovens que acreditar em Deus no mundo atual exige esforço. Ele perguntou à multidão se era difícil crer naquele ano 2000 e respondeu com franqueza que sim, mas que, com a ajuda da graça, era possível.
Em seguida, fez uma das afirmações mais lembradas de seu pontificado, ao dizer que o desejo de felicidade que cada jovem carrega já é, no fundo, uma busca por Cristo:
“Na realidade, é Jesus quem buscais quando sonhais a felicidade; é Ele quem vos espera, quando nada do que encontrais vos satisfaz; Ele é a beleza que tanto vos atrai.”
João Paulo II continuou explicando que é Jesus quem desperta nos jovens “o desejo de fazer da vossa vida algo de grande” e “a recusa de vos deixardes submergir pela mediocridade”. Na mesma vigília, o Papa lembrou que a fidelidade a Cristo se prova nas situações de todos os dias, como no namoro, que enfrenta dificuldade para viver a pureza antes do casamento, nas amizades tentadas pela deslealdade e no trabalho de quem quer viver a solidariedade em um mundo guiado pela lógica do lucro.
Também chamou os jovens de “sentinelas da manhã”, recordando que, no século XX, gerações inteiras haviam sido convocadas em grandes reuniões para aprender a odiar. A geração do novo milênio, disse ele, estava ali para afirmar o contrário e defender a paz e a vida em todas as suas etapas.
Um ano antes, em junho de 1999, João Paulo II já havia preparado os jovens para aquele encontro com uma mensagem que tocava em um ponto delicado, que era a ideia de que santidade é coisa do passado ou de poucos escolhidos.
“Caros jovens, tende a santa ambição de ser santos, como Ele é Santo!”
Ele antecipou a pergunta que muitos fariam, se é possível ser santo hoje, e reconheceu que, contando apenas com as forças humanas, a tarefa pareceria impossível. A resposta foi colocar a confiança em Cristo, que caminha com cada um e renova o coração. A frase que fecha esse trecho virou uma espécie de lema daquela geração:
“Jovens de todos os continentes, não tenhais medo de ser os santos do novo milênio!”
Na mesma mensagem, João Paulo II pediu aos jovens que fossem amantes da oração, coerentes com a fé e generosos no serviço aos irmãos, e que buscassem força na Palavra de Deus e nos Sacramentos, especialmente na Eucaristia e na Confissão.
Ele voltaria ao tema na Jornada Mundial da Juventude de Toronto, no Canadá, em 2002, quando dedicou o encontro às palavras de Jesus no Sermão da Montanha: “Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo” (Mateus 5,13-14). No ano anterior, em um Angelus de agosto de 2001, havia deixado claro o elo entre as duas ideias, ao afirmar que ninguém pode ser sal da terra e luz do mundo sem tender para a santidade.
No dia seguinte à vigília, em 20 de agosto de 2000, o Papa presidiu a missa de encerramento da Jornada em Tor Vergata e partiu de uma pergunta que Jesus fez aos Apóstolos quando muitos discípulos o abandonaram: “Também vós quereis retirar-vos?” (João 6,67). Diante dos jovens que se preparavam para escolher curso, profissão e vocação, João Paulo II mudou o foco da conversa ao dizer que, entre tantas decisões, as mais importantes não dizem respeito a “que coisa” fazer, mas a “quem” seguir e a quem entregar a própria vida.
A resposta, segundo ele, estava no altar, onde Cristo está realmente presente. Por isso, ao se despedir, o Papa pediu:
“Meus amigos, ao regressardes às vossas terras, ponde a Eucaristia no centro da vossa vida pessoal e comunitária: amai-a, adorai-a, celebrai-a, sobretudo ao Domingo, o dia do Senhor.”
Na mesma homilia, reconheceu que muitos jovens são atraídos pela promessa de uma vida fácil e cômoda e acabam enredados no desespero e na falta de sentido. Também encorajou quem sentisse o chamado ao sacerdócio ou à vida consagrada a responder com coragem, sem se deixar paralisar pela dúvida ou pelo medo.
São João Paulo II encerrou aquela homilia parafraseando Santa Catarina de Sena, em uma frase que até hoje é repetida em grupos de jovens e encontros vocacionais:
“Se fordes aquilo que deveis ser, pegareis fogo ao mundo inteiro!”.
Os jovens que estiveram em Tor Vergata no ano 2000 hoje são pais, mães, padres, religiosas e profissionais nas mais diversas áreas. Ainda assim, as palavras de João Paulo II falam com a mesma clareza às novas gerações, porque tratam de inquietações que não mudaram, como a busca por felicidade, o medo de não estar à altura do que Deus pede e a necessidade de saber em quem confiar.
Ao longo de quase 27 anos de pontificado, o Papa polonês fez 104 viagens apostólicas e encontrou milhões de pessoas, mas manteve com os jovens uma relação especial de confiança. Ele foi beatificado por Bento XVI em 1º de maio de 2011 e canonizado pelo Papa Francisco em 27 de abril de 2014.
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