Baleado no pescoço durante operação policial, ele sobreviveu e diz: “vivenciar um milagre muda completamente sua relação com Deus”

Baleado no pescoço durante operação policial, ele sobreviveu e diz: “vivenciar um milagre muda completamente sua relação com Deus”

Na manhã de 26 de fevereiro de 2025, o policial civil Thiago de Medeiros Celestino atuava no cumprimento de mandados judiciais em uma área isolada do sertão potiguar, no município de São João do Sabugi, região do Seridó (RN). A Operação Vértice tinha como objetivo combater organizações criminosas ligadas à facção Comando Vermelho na região. Durante a ação, ele foi atingido por três disparos e um deles no pescoço. Os outros dois ficaram contidos no colete balístico. Esse foi o início do milagre de Deus em sua vida.

O que se seguiu nas horas seguintes foi uma combinação de treinamento, acaso e uma sequência de milagres. Ele sobreviveu. E a história de como isso aconteceu parece até uma série de superação, mas é a vida real de um pai, educador físico e policial que arrisca a vida pela sociedade e mobilizou o estado inteiro. A rede de solidariedade que se formou levou ao recorde de doações nos bancos de sangue do Rio Grande do Norte e também aproximou mais as pessoas da rotina de uma profissão de risco como a dos policiais.

Trajetória na polícia

Thiago tem 42 anos e é de Mossoró, no Rio Grande do Norte. Quando tinha 18 anos, influenciado por um amigo, foi servir às Forças Armadas em Natal. Foi lá que surgiu um sentimento de “pertencer a algo maior, viver por um propósito coletivo e servir pessoas”.

Em 2009, durante aulas de capoeira, conheceu Ricardo Lima, policial civil. A convivência despertou a possibilidade de “servir pessoas em momentos de caos, dor e vulnerabilidade”, como conta. Começou ali sua preparação para os concursos. Antes de ingressar na Polícia Civil, em 2015, Thiago já tinha uma trajetória esportiva consolidada. 

Thiago conquistou o título na Capoeira em 2013

Formado em Educação Física em 2010, dedicou anos à capoeira em alto rendimento: em 2013, conquistou o título mundial nos Jogos da Abadá Capoeira, no Rio de Janeiro. Também pratica Jiu-Jitsu e trabalhou por anos como preparador físico voltado a candidatos em concursos públicos.

Jiu-jitsu: esporte como profissão e vida

Na carreira policial, passou por diferentes delegacias. Em 2024, após quatro tentativas em diferentes estados do Brasil, concluiu o Curso de Operações Táticas Especiais pela Core da Polícia Civil da Bahia e ficou habilitado a integrar a recém-criada Core do RN. “Fazer parte da Core representou a realização de um dos maiores sonhos da minha carreira policial”.

As Cores atuam em situações de alta complexidade: operações especiais, combate ao crime organizado e gerenciamento de crises. Na unidade, Thiago vivia o que descreve como a tríade do operador especial: treinar, operar e instruir.

Em treinamento para o Core

A operação e o que aconteceu

A Operação Vértice foi conduzida pelas unidades de Serra Negra do Norte e Caicó. A Core foi acionada para o cumprimento de mandados de prisão e busca e apreensão em um imóvel em área rural de São João do Sabugi, além de alvos estratégicos ligados à criminalidade violenta na região.

Durante a ação, Thiago foi atingido. Um disparo no pescoço e dois nas costas (detidos pelo colete). A equipe iniciou imediatamente o atendimento pré-hospitalar e partiu em direção ao hospital mais próximo. O primeiro milagre da sequência aconteceu na tentativa de encontrar o caminho correto, pois o motorista da viatura não conhecia a região e, no meio do sertão, com bifurcações e sem referências claras, seguiu em frente.

No caminho, encontraram um oficial da Polícia Militar que apoiava a operação, conhecia a região e indicou o trajeto mais rápido, o que foi determinante. Ele também acionou apoio via rádio para que uma ambulância viesse ao encontro da viatura. Foram cerca de 35 minutos até esse encontro. Durante todo o percurso, dois operadores da Core realizavam o atendimento ao lado de Thiago.

“Minha missão era simples: chegar acordado ao hospital. Pedi várias vezes ao policial Rafael, que estava me socorrendo, para não me deixar morrer, porque eu precisava continuar ao lado da minha filha”, lembra Thiago. Ele chegou ao hospital consciente e acordado.

Ao chegar ao hospital, uma segunda providência divina, entre os “acasos de Deus”. No hospital de Caicó, um médico experiente iniciou os procedimentos e um cirurgião, que normalmente teria ido para casa após o plantão, havia decidido, naquele dia, descansar no hospital antes de viajar e foi acordado para auxiliar no atendimento. Thiago foi entubado e transferido de helicóptero para Natal, onde passou por cirurgia de alta complexidade. Em operações desse tipo, tudo pode mudar em segundos.

A campanha que bateu recordes nos bancos de sangue

Enquanto Thiago estava internado, uma campanha de doação de sangue organizada em solidariedade ao seu caso atingiu recordes históricos nas três principais cidades do Rio Grande do Norte, Natal, Mossoró e Caicó. O momento era particularmente crítico para os bancos, pois a operação aconteceu logo após o carnaval, quando costumam estar nos índices mais baixos do ano.

“Fiquei assustado ao saber da dimensão que a campanha tomou. Eu aceitava um grande movimento na minha cidade, onde conheço muitas pessoas. Mas saber que pessoas da capital e de Caicó também se mobilizaram dessa forma foi algo que realmente mexeu comigo.”

Ao saber dos números, seu primeiro pensamento foi de “eu não mereço tanto carinho assim”. Ser salvo já era algo extraordinário, mas ajudar outras pessoas em situações difíceis era ainda mais especial.

“Acredito que Deus me usou não apenas para salvar minha vida, mas também para salvar muitas outras pessoas através daquela mobilização. Essa é uma gratidão que carregarei para sempre.”

Sequelas, recuperação e fé

Thiago segue em recuperação. O episódio deixou duas sequelas físicas, uma relacionada à voz e outra ao processo respiratório. Há mais um procedimento cirúrgico pela frente, conduzido por um especialista em São Paulo. “Os desafios existem diariamente, mas procuro enfrentar cada etapa com paciência, disciplina e fé”, diz.

Thiago é católico e a oração já fazia parte da rotina antes do dia 26 de fevereiro, mas passou a ter outra dimensão.

“Hoje eu acredito fielmente que sou um milagre vivo. As pessoas que estavam comigo e eu ainda não conseguimos entender racionalmente como tudo aconteceu da maneira que aconteceu. Vivenciar um milagre muda completamente sua relação com Deus.”

Na rotina operacional, antes do episódio, a fé já era uma base essencial. Ele acredita que ter fé no Pai é ainda mais importante do que o desenvolvimento de habilidades técnicas.

“A fé é a base mais sólida da atividade policial. Vivemos uma guerra diária e colocamos nossas vidas nas mãos do Senhor todos os dias em prol do próximo.”

Ao acordar no hospital, uma pergunta virou rotina. “Por que eu? Por que Ele me escolheu? Eu mereço isso? Talvez eu nunca tenha essa resposta completamente, mas sigo tentando honrar diariamente essa nova oportunidade de vida.”

O que mudou

Thiago reconhece que existe um homem diferente depois daquele dia. As prioridades se reorganizaram e o tempo passou a ter outro peso. “Passei a refletir sobre coisas simples que antes pareciam comuns: não acordar novamente, não tomar mais um café, não ver o amanhecer, não ver o mar, não acompanhar o crescimento da minha filha. Tudo isso gera uma reflexão muito profunda sobre como devemos viver nossa vida”.

O que não mudou, segundo ele, é igualmente importante: a essência, os princípios, a disciplina, a vontade de servir. O objetivo mais próximo é voltar a operar.

“A intenção é corrigir as sequelas respiratórias e vocais para que eu possa voltar à minha rotina normal, recuperar minha qualidade de vida e, principalmente, voltar a operar ao lado dos meus irmãos de unidade.”

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