Perdoar quem destruiu sua vida? O que Mandela e a Bíblia ensinam sobre isso

Perdoar quem destruiu sua vida? O que Mandela e a Bíblia ensinam sobre isso

Depois de 27 anos preso, em 11 de fevereiro de 1990, Nelson Mandela caminhou pela primeira vez como homem livre pelos portões da prisão de Victor Verster, na África do Sul. Poderia ter saído com raiva, com discurso de vingança e todo mundo esperava ao menos um sinal de rancor de quem havia perdido três décadas de vida por uma injustiça, mas não foi isso que aconteceu.

Ao discursar para mais de 50 mil pessoas reunidas em Cidade do Cabo, Mandela começou com uma confissão de humildade: “Estou aqui diante de vocês não como um profeta, e sim como um humilde servo do povo.” Não havia ódio na voz e nem rancor no rosto, mas um homem que havia decidido, nos anos de cárcere, que a amargura seria uma segunda prisão e que não estava disposto a continuar preso.

Nelson Mandela deixa prisão e imagem é de alergia, não de raiva

O que ele viveu dentro da prisão

Os números já são impressionantes por si mesmos. Mandela foi preso em 1962, condenado à prisão perpétua em 12 de junho de 1964 por sabotagem e conspiração contra o Estado, em um julgamento em que ele próprio fez sua defesa, e passou 18 dos seus 27 anos de prisão em Robben Island, uma ilha a 11 km da costa da Cidade do Cabo.

A cela media 2,5 metros por 2,1 metros. No chão, tinha uma esteira de palha e existia uma janelinha de 30 centímetros. Ele passava por trabalhos forçados na pedreira de calcário, cujo brilho intenso danificou permanentemente sua visão. Houve proibição de receber visita dos filhos menores de 16 anos, de ir ao funeral da mãe, em 1968, e ao do filho mais velho, em 1969, que tinha apenas 24 anos. Mandela soube da morte do filho por meio de um telegrama entregue apenas no dia seguinte e viveu a angústia de nem saber o motivo da morte, que foi um acidente de carro.

Em 1985, o presidente sul-africano Pieter Botha ofereceu-lhe a liberdade se o ANC renunciasse à luta armada. Mandela recusou. “Só os homens livres podem negociar. Sua liberdade e a minha não podem ser separadas”, declarou por meio da filha Zindzi, que leu a mensagem em um comício em Soweto. Ele saiu da prisão com 71 anos e em 1994 foi eleito presidente. 

Personagens bíblicos que também estiveram presos

Mandela não foi o primeiro a aprender que é possível preservar a integridade interior dentro de uma cela. A Bíblia tem histórias de pessoas presas injustamente que saíram transformadas pela fé que mantiveram dentro dela.

José do Egito foi vendido pelos próprios irmãos, acusado falsamente pela mulher de Potifar e jogado na prisão. Anos mais tarde, tornaria a se encontrar com os irmãos que o traíram, já como governador do Egito. E em vez de vingança, disse: “Não foi vocês que me enviaram para cá, foi Deus” (Gn 45,8).

João Batista foi preso por ordem do rei Herodes Antipas após denunciar publicamente a relação ilegítima do rei com a mulher do próprio irmão (cf. Mt 14,3-12). Não abriu mão do testemunho e pagou com a vida.

Paulo e Silas, em Filipos, foram espancados e acorrentados na prisão mais funda depois de expulsarem um espírito de uma jovem escravizada. Podiam estar amargos, com dor e sem saída, mas resolveram orar e cantar hinos a Deus enquanto os outros presos os ouviam (cf. At 16,22-25). Um terremoto abriu as portas, eles não fugiram e o carcereiro que os mantinha presos foi convertido naquela noite.

Pedro foi preso por Herodes e guardado por quatro esquadras de soldados. A Igreja inteira orou por ele (cf. At 12,5) e ele foi libertado.

O que Jesus diz sobre perdoar quem nos fez mal

“Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem.” (Mt 5,44)

“Pois se amardes somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem o mesmo os publicanos?” (Mt 5,46)

Quando Pedro pergunta quantas vezes deve perdoar o irmão – “até sete vezes?” – Jesus responde: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.” (Mt 18,22)

O perdão que Jesus propõe é uma libertação de si mesmo. Guardar o ódio é continuar preso à memória, à mágoa, ao poder que o outro tem sobre o próprio coração. Em 27 anos de prisão, Mandela mostrou o exemplo do desprendimento. A recusa de deixar que a injustiça defina o futuro e a decisão de não ser governado pelo que os outros fizeram.

Em sua autobiografia O Longo Caminho para a Liberdade (1994), ele escreveu:

“Ninguém nasce odiando o outro pela cor de sua pele, ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender; e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar.”

Aprender a amar é o projeto de toda a vida cristã, mas não significa que é fácil. Por ser também atitude, ainda que sem vontade esse caminho pode ser aprendido para se tornar uma decisão. Leia mais sobre a importância de praticar o perdão. 

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