Cardeal e freiras processam estado americano para não serem obrigados a promover suicídio assistido

Cardeal e freiras processam estado americano para não serem obrigados a promover suicídio assistido

Uma coalizão de religiosas uniu-se ao cardeal Blase Cupich, arcebispo de Chicago (EUA), em uma ação judicial contra o estado de Illinois para impedir a aplicação de sua lei de suicídio assistido. A ação foi anunciada em 3 de setembro pelo escritório de advocacia Becket, especializado em liberdade religiosa, e apresentada em um tribunal distrital dos Estados Unidos.

A lei, sancionada pelo governador J.B. Pritzker em dezembro de 2025, permite que médicos do estado prescrevam doses letais de medicamentos a pacientes com doenças terminais para auxiliá-los a encerrar suas próprias vidas. A norma recebeu fortes críticas dos bispos católicos de Illinois desde sua aprovação.

O que diz a ação judicial

As irmãs que integram a coalizão pertencem a duas ordens: as Irmãs Carmelitas para Idosos e Enfermos e as Pequenas Irmãs dos Pobres. Segundo o processo, até 12 de setembro, todos os prestadores de cuidados de saúde em Illinois — incluindo as freiras por meio de suas casas de repouso — serão obrigados a discutir proativamente a “opção” de suicídio com os pacientes sob seus cuidados. Os cuidadores também terão que “permitir que os pacientes cometam suicídio em suas instalações”, conforme descreve a ação.

O processo argumenta que a Primeira Emenda da Constituição americana proíbe o estado de exigir que cuidadores católicos violem sua fé ao participar desse regime. Caso se recusem, as irmãs enfrentariam “multas e penalidades significativas”, segundo o documento.

As vozes da Igreja

Em comunicado divulgado no dia do anúncio, o cardeal Cupich afirmou que a Igreja Católica “se opõe aos esforços de minar a dignidade humana ao empurrar nossos irmãos e irmãs para o suicídio”. E acrescentou:

“Oramos para que os tribunais protejam nossa liberdade de continuar defendendo e cuidando dos doentes e moribundos como nossa fé exige.”

Madre Mary Rose Heery, O.Carm., superiora geral das Irmãs Carmelitas para Idosos e Enfermos, disse, no mesmo comunicado, que os pacientes sob seus cuidados “vêm até nós em um dos momentos mais vulneráveis de suas vidas” e que as irmãs têm vocação “de dar testemunho a eles, através de tudo o que fazemos, de que suas vidas permanecem preciosas e que eles nunca serão abandonados. Illinois não pode nos pedir para substituir essa promessa por ajuda para encerrar suas vidas”.

Mark Rienzi, presidente do escritório Becket, descreveu as disposições da lei como “terríveis” e afirmou, no mesmo comunicado, que “o estado deveria parar de tentar fazer freiras católicas ajudarem pacientes a se matarem”, argumentando que pacientes doentes “merecem a liberdade de buscar cura, esperança e acompanhamento sem que o governo force o suicídio na conversa”.

Não é o primeiro processo em Illinois

A ação do cardeal Cupich e das irmãs não é isolada. Em agosto, o bispo de Springfield, Thomas Paprocki, já havia se unido a um lar de idosos luterano e a um grupo de médicos para processar o estado pela mesma lei. Aquela coalizão argumentou que o regime de suicídio do estado abandona “quase dois milênios de prática médica” ao exigir que seus opositores participem do processo. O estado concordou com um bloqueio temporário da lei naquele mês, mas aplicável apenas aos demandantes daquele processo específico.

Em julho, o bispo de Rockville Centre, John Barres, também se uniu a comunidades de irmãs religiosas de Nova York numa ação judicial contra a lei de suicídio assistido daquele estado, obtendo igualmente um bloqueio temporário. Grupos de defensores de pessoas com deficiência entraram com ações semelhantes em Nova York, Illinois, Colorado e Delaware, alegando que essas leis discriminam pessoas com deficiência.

A Igreja no debate europeu

A resistência católica ao suicídio assistido não se limita aos Estados Unidos. Em fevereiro de 2026, o cardeal Matteo Zuppi, presidente da Conferência Episcopal Italiana (CEI), entrou publicamente no debate italiano sobre o tema, às vésperas de um projeto de lei que buscava regulamentar e ampliar o acesso ao suicídio assistido no país.

Em discurso ao CEI, divulgado pela Aleteia em 10 de fevereiro de 2026, Zuppi declarou:

“A dignidade humana não é medida por sua eficiência ou utilidade. A vida sempre tem valor, apesar da doença, fragilidade e limitações. A resposta ao sofrimento não é oferecer a morte, mas garantir formas de apoio social, cuidados de saúde contínuos e cuidados de saúde domiciliares, para que o paciente não se sinta sozinho e as famílias possam ser apoiadas e acompanhadas.”

O cardeal também expressou preocupação com o risco de que indivíduos escolham encerrar suas vidas por se sentirem “um fardo para suas famílias e para a sociedade”. E defendeu os cuidados paliativos como “um verdadeiro antídoto para a lógica que considera o suicídio assistido ou a eutanásia como opções viáveis”.

Para a Igreja, a resposta ao sofrimento é o acompanhamento, os cuidados paliativos e a presença solidária, não a antecipação da morte. É importante reforçar que a igreja acolhe pessoas que estão passando por momentos de intenso sofrimento e enfrentam doenças graves, como a depressão. Como escreveu o sacerdote e psicanalista Padre Jorge Furtado, que é colunista do IDe+:

“Para a fé católica e para a psicanálise, o sofrimento psíquico não é um sinal de fraqueza, tampouco uma falha espiritual. Como sacerdote e psicanalista, contemplo diariamente a interseção entre o mistério da alma humana e o dinamismo do inconsciente. E é exatamente nessa travessia que precisamos alinhar a luz do Evangelho ao respeito pelo psiquismo humano”.

Perguntas frequentes

O que é suicídio assistido?
É a prática pela qual um médico prescreve uma dose letal de medicamento a um paciente que deseja encerrar a própria vida, geralmente em contextos de doenças terminais. Difere da eutanásia porque quem administra a substância é o próprio paciente.

Por que a Igreja Católica se opõe ao suicídio assistido?
O Catecismo da Igreja Católica (n. 2277) ensina que qualquer ato que provoca intencionalmente a morte para suprimir o sofrimento é contrário à dignidade humana e à vontade de Deus. A Igreja defende os cuidados paliativos como alternativa legítima e humana.

O que é o Becket Fund?
O Becket — ou Fundo Becket — é um escritório de advocacia americano especializado em liberdade religiosa, responsável por representar os demandantes católicos no processo contra o estado de Illinois.

O que são cuidados paliativos?
São cuidados médicos especializados voltados a melhorar a qualidade de vida de pacientes com doenças graves, aliviando o sofrimento físico, emocional e espiritual, sem antecipar nem prolongar artificialmente a morte. Leia mais sobre cuidados paliativos neste post.

 

Foto: Irmãs do Lar Santa Maria, em Chicago. Foto: fundo Becket

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