Depois de contar como é o cristianismo na Turquia e na Índia, a série chega ao país mais populoso da terra e talvez ao cenário mais complexo, mais resiliente e mais difícil de resumir que o catolicismo enfrenta no mundo hoje. A China tem 1,4 bilhão de habitantes, a segunda maior economia do planeta e uma comunidade cristã que dado oficial consegue capturar com precisão, porque boa parte dela vive, há décadas, às sombras de um regime que reconhece a fé com uma mão e a controla com a outra.
Estimar o número de cristãos na China é, por si só, um exercício de incerteza. A Constituição chinesa reconhece a “liberdade de crenças religiosas” cinco religiões oficialmente são reconhecidas: Budismo, Taoísmo, Islamismo, Protestantismo e Catolicismo. Qualquer prática fora do controle governamental é ilegal e sujeita a punições.
Em 2018, o governo chinês declarou que há mais de 44 milhões de cristãos no país. Organizações independentes de monitoramento religioso estimam números muito maiores: a Portas Abertas, que acompanha a liberdade religiosa em todo o mundo, calcula cerca de 96,7 milhões de cristãos na China. Para católicos, a estimativa mais citada pelas fontes do Vaticano e pela imprensa internacional é de aproximadamente 12 milhões de fiéis.
O catolicismo na China vive uma divisão histórica que o Acordo Sino-Vaticano de 2018 tentou começar a resolver. De um lado, a Igreja oficial, submetida à Associação Católica Patriótica Chinesa, organismo controlado pelo Estado, cujos bispos historicamente eram nomeados pelo Partido Comunista sem aprovação do Papa. Do outro, a Igreja subterrânea, comunidades que sempre reconheceram exclusivamente a autoridade de Roma, muitas vezes reunindo-se em segredo, com sacerdotes perseguidos e fiéis que arriscavam a liberdade pela fé.
O acordo firmado entre a Santa Sé e Pequim em setembro de 2018, cujo conteúdo nunca foi tornado público, buscou unificar essas duas realidades, dando ao Papa a palavra final sobre a nomeação dos bispos e regularizando a situação de prelados de ambos os lados. Em outubro de 2024, o acordo foi renovado por quatro anos, a primeira prorrogação de longa duração desde a assinatura, interpretada como sinal de confiança mútua crescente.
Nos últimos seis anos, foram celebradas na China continental nove novas ordenações episcopais católicas, enquanto oito bispos considerados “não oficiais”, consagrados no passado fora dos procedimentos impostos pelos aparatos chineses, foram publicamente reconhecidos no seu papel episcopal também pelas autoridades políticas de Pequim.
Segundo o Vatican News, das 98 dioceses católicas existentes na China, 25 já têm um bispo regularizado, mais de 25% em seis anos, descrito pela Santa Sé como “uma proporção bastante significativa.”
A relação entre Roma e Pequim é objeto de documentos papais importantes. Em 2001, João Paulo II pediu publicamente perdão à China pelos erros cometidos pelos missionários no passado, um gesto de humildade histórica que abriu espaço para diálogo. Em 2007, Papa Bento XVI assinou uma carta diretamente aos bispos, sacerdotes, consagrados e fiéis leigos da Igreja Católica na República Popular da China, um documento raro e denso, no qual reconhecia a complexidade da situação e pedia comunhão, paciência e fidelidade a Roma.
O cristianismo chegou à China muito antes do que a maioria imagina. A Igreja do Oriente, o ramo cristão que se expandiu pela Ásia, esteve presente na China já no século VII, durante a dinastia Tang. O catolicismo foi patronizado pelos imperadores da dinastia Yuan, de origem mongol, nos séculos XIII e XIV, e retornou com força no século XVI com os jesuítas, entre eles o padre Matteo Ricci, que chegou a Pequim em 1601 e se tornou conselheiro imperial ao unir fé e ciência de forma que ainda hoje impressiona historiadores.
Com a chegada do século XIX e das missões protestantes, o cristianismo ganhou nova expansão, mas também foi progressivamente associado ao imperialismo ocidental, especialmente após as Guerras do Ópio. A maior perseguição desse período foi o Levante dos Boxers (1899-1900), que matou dezenas de milhares de cristãos chineses.
Com a vitória do Partido Comunista em 1949 e a instauração da República Popular da China, as igrejas foram fechadas, os missionários estrangeiros expulsos e os cristãos nativos perseguidos. Eram cerca de 4 milhões antes de 1949 — 3 milhões de católicos e 1 milhão de protestantes. Com a reabertura relativa da China nas reformas econômicas do final dos anos 1970, o número de cristãos cresceu significativamente, mesmo sob restrições.
A realidade dos cristãos na China contemporânea é marcada por avanços e recuos. O relatório de perseguição religiosa de 2025 da Fundação Portas Abertas posicionou a China como o 15º país que mais persegue cristãos no mundo. As restrições incluem demolição de igrejas, proibição de formação religiosa para menores de 18 anos e vigilância sistemática das comunidades religiosas, incluindo câmeras com reconhecimento facial em algumas igrejas e aplicativos de registro obrigatório de fiéis.
Ao mesmo tempo, igrejas protestantes registradas crescem entre 500 a 600 mil novos membros por ano, segundo dados da Fundação Portas Abertas. Nas grandes cidades, grupos de jovens profissionais buscam o cristianismo como resposta a um vazio espiritual que o crescimento econômico não preencheu. E nas províncias rurais, comunidades que resistiram décadas na clandestinidade hoje convivem com uma vigilância mais sofisticada, mas continuam resistindo.
Em 2007, ao assinar a carta aos católicos chineses, Papa Bento XVI instituiu o Dia Mundial de Oração pela Igreja na China, celebrado anualmente em 24 de maio, festa de Nossa Senhora Auxiliadora, padroeira da China. A cada 24 de maio, católicos de todo o mundo são convidados a rezar pelos irmãos e irmãs que vivem sua fé em um contexto de restrição.
Para a Santa Sé, o caminho é o do diálogo. Como reafirmou o Vatican News ao analisar a renovação do acordo em 2024, a Santa Sé está determinada a “continuar o diálogo respeitoso e construtivo com as autoridades de Pequim, com vista ao bem da Igreja Católica no país e de todo o povo chinês”.
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