Outubro chegou e, com ele, vem o clima intenso do período eleitoral. Nas redes sociais, nas reuniões familiares, na saída da Santa Missa e nos grupos de mensagens instantâneas, as discussões políticas ganham força. Infelizmente, não é raro ver amizades de anos estremecidas, famílias divididas e irmãos na fé que se tratam como inimigos por causa de divergências partidárias.
Diante desse cenário, surge uma pergunta fundamental para todo cristão: Como podemos posicionar a nossa fé e exercer a cidadania sem destruir os laços de amor e fraternidade que nos unem?
A Igreja Católica nos ensina que a política é uma forma sublime de caridade, mas lembra também que nenhum partido ou ideologia esgota o mistério do Reino de Deus. A seguir, com base na Doutrina e no Catecismo da Igreja Católica, refletimos sobre como preservar os vínculos e viver este momento com maturidade espiritual.
O Catecismo da Igreja Católica (CIC, §2246) nos instrui que é dever dos fiéis leigos participar da vida pública e buscar o bem comum. Votar não é apenas um direito civil, mas uma responsabilidade moral. Ao exercer este ato, o cristão deve buscar defender a vida desde a concepção, a dignidade da pessoa humana, a família, a justiça social e a liberdade religiosa.
No entanto, o saudoso Papa Francisco nos recorda, na Encíclica Fratelli Tutti, que a verdadeira política deve estar a serviço do bem comum e do amor ao próximo, não da divisão. Quando esse tema vira fonte de ódio, desprezo ou agressão, se afasta do seu propósito cristão e, consequentemente, da caridade.
Jesus nos deixou um mandamento claro: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (João 13,35). Ele não disse que seríamos reconhecidos por nosso candidato ou por nossas preferências ideológicas, mas pela caridade.
Nas discussões sobre opiniões políticas:
• Verdade sem amor se torna crueldade: de nada adianta defender princípios cristãos se o fazemos com arrogância, ofensas ou ironias.
• O irmão é uma pessoa, não um rótulo: por trás de uma opinião diferente da sua, existe uma pessoa criada à imagem e semelhança de Deus, com sua própria história, dores e perspectivas.
Como aponta São Paulo em sua Carta aos Efésios: “Com toda a humildade e mansidão, com paciência, suportando-vos uns aos outros em caridade, aplicando-vos a guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Efésios 4,2-3).

Para que o clima eleitoral não corroa a comunhão nas famílias e nas comunidades, podemos adotar posturas inspiradas pela fé:
• Escutar antes de reagir: a Bíblia orienta que “Todo homem seja pronto para ouvir, tardio para falar e tardio para a ira” (Tiago 1,19). Antes de responder com agressividade em um debate, procure entender o ponto de vista do outro.
• Saber impor limites saudáveis: se você perceber que uma conversa política está descambando para a discórdia e o desrespeito, escolha recolher-se com humildade. Preservar a paz na família ou na amizade é muito mais valioso do que “ganhar” uma discussão.
• Cuidado com o ambiente virtual: as redes sociais tendem a amplificar a polarização. Antes de compartilhar uma notícia ou comentar publicamente, pergunte-se: ‘esta mensagem constrói a paz ou espalha a discórdia? É verdadeira ou apenas alimenta a mágoa?’
• Evite o maniqueísmo: não trate quem pensa diferente de você como uma pessoa essencialmente má, nem idealize candidatos como salvadores da pátria. Nosso único Salvador é Jesus Cristo.
A própria palavra católico significa “universal”. Nas comunidades convivem pessoas de diferentes origens, culturas e visões de mundo. A unidade da Igreja não é uniformidade de pensamento sobre coisas temporais, mas a união no mesmo Batismo, na mesma Fé e na mesma Eucaristia.
Nas palavras atribuídas a Santo Agostinho: “No essencial, unidade; no não essencial, liberdade; em tudo, caridade.“
Neste mês de outubro, além de analisar com responsabilidade as propostas dos candidatos e formar bem a nossa consciência, somemos às nossas ações a oração pelo nosso país.
Rezemos pela paz, pela sabedoria dos nossos governantes e, acima de tudo, para que o Espírito Santo guarde o nosso coração de todo ressentimento. Que possamos passar por este período eleitoral dando testemunho de que o amor de Cristo é incomparavelmente maior e mais duradouro do que qualquer disputa partidária. Exerça a cidadania com sabedoria.
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