A carta de lei que Dom Pedro I mandou executar no Palácio do Rio de Janeiro, em 11 de agosto de 1827, tem redação seca e ambição desproporcional ao tamanho do texto: criar dois cursos de ciências jurídicas e sociais, um na cidade de São Paulo e outro na de Olinda, com cinco anos de duração e nove cadeiras. Até ali, quem quisesse um diploma em Direito atravessava o Atlântico e Coimbra era o destino natural.
Em São Paulo o curso foi instalado em 1º de março de 1828, no Mosteiro de São Francisco, e em Olinda, no Mosteiro de São Bento, em 15 de maio do mesmo ano. O ensino superior brasileiro começou a funcionar dentro de dois mosteiros.
A data só virou festa dos estudantes um século mais tarde. Nas comemorações do centenário dos cursos jurídicos, em 1927, o advogado Celso Gand Ley sugeriu aos presentes que o mesmo 11 de agosto fosse consagrado ao estudante, razão pela qual advogados e alunos dividem o calendário até hoje.
Para celebrar a data, conheça santos aos quais os estudantes podem recorrer para pedir intercessão.
Um caso interessante é o de São José de Cupertino. Nascido em 17 de junho de 1603, numa cidadezinha da província de Lecce, veio ao mundo em uma estrebaria porque a família havia sido arruinada por uma dívida do pai; começou a frequentar a escola, mas uma úlcera gangrenosa o afastou dos estudos por cinco anos. Foi recusado pelos franciscanos reformados e pelos capuchinhos, sempre pela mesma razão (pouca instrução), até que os frades de Grottella levaram a sério sua situação e o ajudaram a percorrer um verdadeiro caminho de estudos.
Na prova oral decisiva, o bispo examinou os primeiros candidatos, ficou satisfeito com as respostas e dispensou o exame dos demais; José era o seguinte da fila. Ordenado Sacerdote em 1628, morreu em 18 de setembro de 1663, dia em que a Igreja o celebra. O Vaticano o apresenta como padroeiro dos estudantes em dificuldade, e a oração tradicional a ele dirigida fala, sem rodeios, da ansiedade que acompanha a tarefa de estudar e do risco do desânimo.
No extremo oposto da prateleira está São Tomás de Aquino, que nunca teve problema com conteúdo, mas teve com a família: aos 19 anos entrou para os dominicanos e foi mantido preso no castelo do pai, contra a vontade, até que o conflito se resolvesse. Em 4 de agosto de 1880, no breve Cum hoc sit, Leão XIII o designou padroeiro de todas as universidades, academias, colégios e escolas católicas do mundo, exatamente um ano depois da encíclica Aeterni Patris, que o apontara como mestre da filosofia cristã. Para o estudante pressionado a cursar aquilo que a família decidiu, o Aquinate é uma companhia menos óbvia e mais útil do que parece.
Seu mestre, Santo Alberto Magno, resolve outro impasse. Dedicou-se às artes liberais em Pádua e desenvolveu cedo o interesse pelas ciências naturais, que se tornaria seu campo de especialização. Pio XI o canonizou e o proclamou Doutor da Igreja em 1931, e dez anos depois Pio XII o declarou padroeiro dos cultores das ciências naturais. Em catequese de março de 2010, Bento XVI resumiu a lição que ele deixa a quem hoje cursa biologia, física ou engenharia: entre fé e ciência não existe oposição. Há ainda um detalhe pouco citado e comovente: nos últimos anos, Alberto começou a perder a memória e mandou construir o próprio túmulo, passando a rezar diariamente o ofício dos mortos. Morreu em 15 de novembro de 1280.

José de Calasanz entra pela porta material. Com duas salas cedidas pelo pároco de Santa Doroteia, em Trastevere, abriu a primeira escola gratuita da Europa para jovens das classes mais pobres. Ele considerava a instrução um direito prioritário dos pobres e, portanto, ato de justiça social. Em 1612, já com cerca de 1.500 alunos, comprou um prédio na Praça Navona. Pio XII o proclamou, em 1948, padroeiro celeste de todas as escolas populares cristãs do mundo, pelo breve Providentissimus Deus. Quem estuda em transporte lotado, em turma de EJA ou com internet instável tem nele um advogado antigo.
Dois dias antes do Dia do Estudante, em 9 de agosto, a Igreja faz memória de Teresa Benedita da Cruz – Edith Stein. Ela interrompeu os estudos durante a Primeira Guerra para servir como enfermeira da Cruz Vermelha; foi assistente de Husserl na Universidade de Freiburg; e aprofundou o tema da empatia e chegou à conversão pela leitura de Santa Teresa de Ávila e dos Exercícios de Santo Inácio. Entrou no Carmelo de Colônia em 1933, foi presa com a irmã Rosa por sua origem judaica e morta em Auschwitz em 9 de agosto de 1942. Canonizada em 1998, foi proclamada copadroeira da Europa por João Paulo II em 1º de outubro de 1999, no motu proprio Spes aedificandi, em razão da contribuição de seu pensamento filosófico. É a santa dos que estudam procurando a verdade e não sabem ainda onde isso vai dar.
Em 7 de setembro de 2025, Leão XIV canonizou Pier Giorgio Frassati e Carlo Acutis, as primeiras canonizações de seu pontificado. Frassati cursava engenharia de minas no Politécnico de Turim e, quando morreu, faltavam-lhe dois exames e a tese. A formatura foi concedida em 2001, no centenário de nascimento, e o vice-reitor da instituição lembra que os painéis da exposição sobre ele brincam com o fato de suas notas não terem sido altíssimas. Escolhera aquela especialidade para trabalhar junto dos mineiros. Acutis, adolescente, integrava naturalmente à rotina a oração, o esporte, o estudo e a caridade. Na homilia, o Papa citou a frase que resume o método do garoto: “Não eu, mas Deus”.
O Catecismo, no parágrafo 956, ensina que os bem-aventurados não deixam de interceder por nós diante do Pai, apresentando os méritos alcançados na terra pelo único mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus. Intercessão não substitui matéria estudada nem faz as vezes de cronograma, mas é companhia e a memória de que a santidade passou por salas de aula, listas de aprovados e reprovações.
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