Por que o ostensório tem formato de sol?

Por que o ostensório tem formato de sol?

A palavra ostensório vem do latim ostendere: expor, mostrar, apresentar. O ostensório é o objeto litúrgico utilizado para expor o Santíssimo Sacramento à adoração pública dos fiéis nas procissões de Corpus Christi, nas celebrações de Adoração ou nas bênçãos com o Santíssimo. Também é chamado de custódia, do latim custodia, guardar, porque guarda e protege a hóstia consagrada enquanto a expõe à veneração.

A estrutura tem um pé, uma haste, um nó para segurar e no centro, uma caixa envidraçada onde a hóstia consagrada é colocada presa em uma peça em forma de meia-lua chamada luneta. Ao redor desse centro, os raios. Acima e abaixo, ornamentações trazem brilho. Algumas custódias são obras de arte reconhecidas mundialmente, como a célebre Custódia de Belém.

História começa na Idade Média

Nos primeiros séculos do cristianismo, o ostensório não existia. A hóstia consagrada era guardada em uma píxide, um recipiente fechado, e exposta aos fiéis apenas duas vezes durante a Santa Missa: no momento da elevação e Comunhão. Eram tempos em que ainda não havia exposição prolongada e procissão com o Santíssimo.

Com a oficialização da Festa de Corpus Christi, universalmente solenizada com a procissão a partir do século XIV, houve necessidade de criar uma maneira que permitisse uma exibição solene da Sagrada Eucaristia. O Dicionário Litúrgico, do Frei Basílio Röwer (Vozes, 1947), informa que o ostensório é utilizado na Igreja desde o século XIV, quando se introduziu a procissão do Corpo de Cristo e a exposição do Santíssimo. As primeiras notícias relativas ao uso de ostensórios estão entre os séculos XIII e XIV, sendo um dos primeiros exemplos construídos datado de 1324, em Reims, na França.

Com o Concílio de Trento, no século XVI, a exposição do Santíssimo Sacramento foi ampliada para grande parte das festas solenes e o ostensório passou a ser cada vez mais elaborado, também como reflexo da importância crescente da Adoração Eucarística na vida da Igreja.

Por que o formato de sol

A forma solar do ostensório é uma declaração teológica sobre quem está no centro daquela peça. No Brasil, a forma mais conhecida foi criada no período barroco: representa o sol resplandecente com raios saindo do centro, pois Jesus Cristo é o nosso sol, como o profeta Malaquias, séculos antes de Cristo, já anunciava:

“Para vós, os que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, e cura trará nas suas asas” (Malaquias 3,20).

A tradição patrística e a teologia cristã sempre leram esse texto como referência messiânica a Jesus: o Sol da Justiça que nasce sobre o mundo, trazendo luz e salvação. No Evangelho de João, Jesus declara: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (João 8,12). No Apocalipse, o Cristo glorioso aparece com “o rosto brilhando como o sol em todo o seu fulgor” (Apocalipse 1,16).

O formato circular do ostensório representa a eternidade de Deus, o vidro ou cristal que protege a hóstia simboliza a pureza e a presença real de Cristo e os raios de sol representam a luz d’Ele que se irradia para o mundo. O Catecismo da Igreja Católica afirma, no parágrafo 1374, que Cristo está presente na Eucaristia de maneira “verdadeira, real e substancial”, como presença plena do Filho de Deus sob as espécies do pão consagrado.

A instrução Redemptionis Sacramentum, do Dicastério para o Culto Divino, afirma que a exposição do Santíssimo conduz os fiéis à contemplação de Jesus presente no Sacramento do Altar. E a encíclica Ecclesia de Eucharistia, de São João Paulo II, nos orienta que essa presença “chama-se ‘real’ não a título exclusivo como se as outras presenças não fossem ‘reais’, mas por excelência, porque é substancial, e porque por ela se torna presente Cristo completo, Deus e homem.”

É por isso que o ostensório é feito com os melhores materiais disponíveis, ouro, prata, cristal, pedras, como forma de reverência. Quando os fiéis se ajoelham diante do ostensório, adoram o Sol da Justiça que habita no seu centro, pois Cristo é luz e é o sol que nasce e não se apaga.

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