Na sinagoga de Cafarnaum, depois que Jesus terminou de falar, o povo ficou impressionado. O relato de São Marcos explica o motivo: “Ensinava-os como quem tem autoridade, e não como os escribas” (Marcos 1,22). A diferença que a multidão percebeu naquele sábado era que os escribas transmitiam a Torá, comentavam os mestres anteriores, citavam autoridades reconhecidas, enquanto Jesus falava por conta própria, com as Suas palavras. A expressão “em verdade, em verdade vos digo” é a marca sonora dessa autoridade. Entenda mais a seguir!
“Amém” vem do hebraico aman, que significa confirmar, firmar, tornar sólido. Era a palavra com que o povo respondia a bênçãos e orações para selar o que tinha sido dito, como se dissesse “que seja assim”, “confirmo”. No Antigo Testamento, aparece nesse papel de resposta coletiva em Números 5,22, Neemias 8,6 e no final de três grandes seções do Salterio (Salmos 41,13; 72,19; 89,52).
A posição da palavra tem relevância também, pois amém encerrava, vinha após a mensagem como a ratificação de algo que alguém já havia dito. Jesus, então, inverteu a ordem. Em vez de usar “amém” para confirmar o que outros disseram, Ele colocou a palavra no começo das próprias afirmações. “Amém, amém vos digo”, ou seja, abria o que Ele ia anunciar como uma declaração.
Os profetas do Antigo Testamento, quando tinham algo urgente a comunicar, usavam a fórmula “assim diz o Senhor”, pois eles eram mensageiros e a autoridade vinha de fora. Jesus não disse “assim diz o Senhor”, mas “em verdade vos digo”, uma vez que a palavra de autoridade vinha Dele mesmo.
Os Evangelhos sinóticos, Mateus, Marcos e Lucas registram Jesus usando “amém vos digo” no singular. Mateus atribui a frase a Jesus 28 vezes. Nos três juntos, sempre a forma simples, mas João é o único que registra a forma dupla (“amém, amém vos digo”), que as tradições bíblicas em português rendem como “em verdade, em verdade vos digo”. E ele faz isso 25 vezes, todas na boca de Jesus, no Quarto Evangelho.
No mundo semítico, repetir uma palavra intensifica seu peso. “Santo, santo, santo” no cântico do Isaías (Is 6,3) é superlativo absoluto. Da mesma forma, “amém, amém” é a form solene que Jesus usa para introduzir uma afirmação e um sinal de que o que vem a seguir tem peso máximo.
Os 25 usos no Quarto Evangelho cobrem os momentos centrais do ensinamento de Jesus. Aparecem nas conversas mais densas teologicamente:
São as afirmações que estruturam o Evangelho: vida eterna, identidade de Jesus, missão, morte e Ressurreição, o que vai acontecer com quem o segue. A fórmula dupla marca esses pontos como se colocasse um sinal de atenção, de que aquela mensagem precisa ser absorvida e vivida.
O Catecismo da Igreja Católica observa, ao comentar o início do ministério de Jesus na Galileia, que Ele se apresenta como superior a Moisés, a Elias e ao próprio Templo (CIC 590). Quando Jesus cita a lei e acrescenta “mas eu vos digo” está legislando com autoridade própria.
“Em verdade, em verdade vos digo” funciona da mesma forma, pois não precisa de nenhuma ancoragem externa, apelo à tradição ou “o Senhor disse a Moisés” que justifique o que vem a seguir, já que a palavra de Jesus sustenta a si mesma e a repetição do “amém” é o modo pelo qual João registra que quem vai falar é alguém cuja palavra não precisa ser referendada por nenhuma outra.
A Vulgata, tradução latina feita por São Jerônimo no século 4 e base da liturgia católica por séculos, manteve o aramaico sem traduzir: “Amen, amen dico vobis”.
Para quem quiser localizar cada uso no texto, as passagens são: João 1,51; 3,3; 3,5; 3,11; 5,19; 5,24; 5,25; 6,26; 6,32; 6,47; 6,53; 8,34; 8,51; 8,58; 10,1; 10,7; 12,24; 13,16; 13,20; 13,21; 13,38; 14,12; 16,20; 16,23 e 21,18. Em todas, a fórmula introduz palavras de Jesus.
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