O santo por trás da “dança de São Vito” e o que é verdade sobre ele

O santo por trás da “dança de São Vito” e o que é verdade sobre ele Por Anónimopintor suíço (cerca de 1500–1520) – http://www.ebay.de, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5847941

A história dele carrega camadas de história, lenda e curiosidade. São Vito ficou famoso por causa de uma doença que causa movimentos involuntários e descoordenados, a “dança de São Vito”. Mas quem foi, de fato, esse Santo e o que a Igreja afirma sobre ele? Entenda o que um mártir do século IV tem a ver com surtos coletivos de dança medieval.

O que a Igreja reconhece e o que é lenda

Os documentos históricos sobre São Vito, assim como acontece com muitos outros santos, são escassos e repletos de elementos lendários acumulados ao longo dos séculos. O Martirológio Geronimiano, um dos mais antigos registros de santos da Igreja, confirma a existência de Vito como mártir. 

A hagiografia tradicional, compilada a partir de relatos do século VII em diante, narra que Vito nasceu na Sicília por volta do ano 290 e foi martirizado por volta de 303, durante a perseguição dos imperadores Diocleciano e Maximiano, aos 15 anos de idade. Desde criança era cristão convicto e seu pai, pagão, tentou demovê-lo da fé quando soube da situação, mas o menino se recusou. Levado diante de um tribunal, foi açoitado e depois posto em liberdade.

A tradição acrescenta que, acompanhado de seu preceptor Modesto e de sua ama-seca Crescência, ambos cristãos, Vito fugiu da Sicília e chegou a Roma. Lá, segundo o relato, curou o filho do imperador Diocleciano de um mal que o afligia, mas longe de ser recompensado, foi preso, torturado e lançado aos animais ferozes. Como saiu ileso, depois foi jogado em óleo fervente com chumbo derretido, mas também teria resistido para, por fim, ser condenado à roda e morreu mártir, cantando glórias a Deus.

Como escreveu a Editora Paulus sobre o perfil de São Vito:

“A figura de São Vito foi envolvida pela lenda, que se caracterizou na fantasiosa Paixão redigida no século VII, e agora torna-se impossível distinguir o que é verdadeiro e o que é lendário, embora seja possível precaver-se das grosseiras invenções”.

O que permanece certo é que Vito existiu, morreu pela fé e foi venerado como mártir pela Igreja desde os primeiros séculos. Isso, para a tradição católica, é o que fundamenta sua santidade, independentemente das questões lendárias que o tempo foi depositando sobre sua memória.

A epilepsia e o primeiro elo com as doenças neurológicas

A ligação de São Vito com as doenças do sistema nervoso começa com a própria narrativa hagiográfica. Segundo a tradição, o filho do imperador Diocleciano quem foi curado da epilepsia por São Vito e esse relato, real ou simbólico, fez com que ao longo dos séculos os fiéis passassem a invocar sua intercessão por pessoas com condições neurológicas, especialmente a epilepsia.

Vito integrou o seleto grupo dos Catorze Santos Auxiliadores, conjunto de mártires invocados na Idade Média para proteção contra doenças específicas. São Vito era chamado, sobretudo, para esconjurar a coreia, ou dança de São Vito, a letargia, a mordida de animais venenosos e a hidrofobia. Esse reconhecimento popular de sua intercessão foi se consolidando ao longo da Idade Média, muito antes de qualquer explicação médica existir para os males que o povo lhe atribuía.

A “dança de São Vito”: entre a história e a medicina

O capítulo mais intrigante da história de São Vito é, sem dúvida, a associação de seu nome a um dos fenômenos mais desconcertantes da história medieval europeia, que eram os surtos coletivos de dança involuntária.

Em 1374, a cidade de Aachen, na Alemanha, registrou o maior surto documentado de coreomania, uma compulsão incontrolável por movimento que levava pessoas à morte por exaustão. O fenômeno se espalhou pela Europa e ficou conhecido como Dança de São Vito. Outro surto ocorreu em Estrasburgo em 1518, quando entre 50 e 400 pessoas começaram a dançar de forma irregular por dias a fio.

As pessoas da época acreditavam que a dança era uma maldição trazida por São Vito. Respondiam orando e fazendo peregrinações a lugares dedicados ao Santo. Alguns afirmavam estar possuídos por demônios e exorcismos eram frequentemente realizados. A Igreja, diante do fenômeno, não o endossava como manifestação sobrenatural, mas também não dispunha dos instrumentos científicos para explicá-lo.

É importante recorrer ao contexto histórico para compreender o terror coletivo. Esses surtos ocorreram décadas após a Peste Bubônica, que havia matado um terço da população europeia, em uma sociedade marcada por fome, medo e desamparo. A fragilidade psicológica coletiva, aliada ao desconhecimento médico da época, transformava qualquer fenômeno inexplicável em uma questão religiosa e a explicação viria séculos depois.

A descrição mais famosa da doença foi feita em San Vito, na Itália, em 1686, pelo médico Thomas Sydenham. A coreia de Sydenham, também chamada de dança de São Vito, é um transtorno neurológico que afeta a coordenação motora de 20 a 40% dos portadores de febre reumática, mais frequente entre meninas, crianças e adolescentes. Trata-se de uma complicação autoimune desencadeada por infecção bacteriana, não por maldição, não por possessão, não por intervenção sobrenatural de qualquer espécie.

No final da Idade Média, as pessoas na Alemanha celebravam a festa de Vitus dançando diante de sua estátua. Essa dança se tornou popular e o nome “Saint Vitus Dance” foi dado à doença neurológica da coreia de Sydenham, o que também levou Vito a ser considerado padroeiro dos dançarinos.

Ou seja: o nome “dança de São Vito” para a doença neurológica não vem de nenhuma doutrina da Igreja, nem de nenhuma crença teológica oficial. É resultado de um processo cultural e histórico no qual o povo medieval, sem recursos médicos, buscou uma explicação para o que não conseguia compreender.

Por trás de todas as camadas de lenda e folclore, há um menino de 15 anos que se recusou a abandonar a fé mesmo diante do pai, dos tribunais e dos carrascos. Esse núcleo, que a Igreja reconhece como historicamente fundado, é o que justifica sua veneração.

São Vito é padroeiro dos jovens, dos dançarinos, dos epilépticos e de todos os que sofrem de doenças nervosas não porque a Igreja tenha validado as superstições medievais que associaram seu nome à dançomania, mas porque a tradição espiritual reconhece nele um intercessor e alguém que, estando diante de Deus, pode levar ao Pai as súplicas dos que sofrem.

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