Dezesseis séculos depois de sua morte, Santo Agostinho sempre tem muito a ensinar e a dizer… Dois sermões desconhecidos do bispo de Hipona foram identificados em um manuscrito medieval conservado na biblioteca diocesana de Pelplin, na Polônia, e sua autenticidade foi confirmada após quase dois anos de análise filológica. A descoberta foi anunciada pela Universidade de Würzburg, na Alemanha, no início de 2026, e repercutiu em publicações especializadas de todo o mundo.
Segundo matéria publicada pelo Vatican News, foi o professor Christian Tornau, latinista da Universidade de Würzburg, quem recebeu, em 2024, o pedido para examinar o manuscrito. O códice, do século XII, havia pertencido originalmente à Abadia de Bad Doberan, na Alemanha, e chegou a Pelplin por meio do mosteiro filial polonês. Ele continha seis sermões atribuídos a Santo Agostinho, dos auqis quatro já eram conhecidos e dois não.
Os dois textos inéditos abordam um dos episódios mais perturbadores do Antigo Testamento: a história da Necrômante de Endor, narrada em 1 Samuel 28, quando o rei Saúl pede que ela evoque o espírito do profeta Samuel. Trata-se de uma passagem teologicamente delicada, que gerou debate entre os grandes exegetas da Antiguidade, entre eles Orígenes, Eustácio de Antioquia e Gregório de Nissa.
Ainda segundo Vatican News, padre Giuseppe Caruso, estudioso do pensamento agostiniano, oferece uma hipótese para explicar por que esses sermões permaneceram desconhecidos por tanto tempo.
“Talvez para alguns copistas medievais tenha parecido pouco interessante um tratamento homilético desse tema”.
Santo Agostinho, no entanto, aborda a passagem em outras obras conhecidas, como De diversis quaestionibus ad Simplicianum e De octo Dulcitii quaestionibus.
O professor Tornau destaca que os sermões se assemelham à forma agostiniana de tratar questões abertas sem impor uma conclusão única.
“O primeiro foi pregado durante o culto dominical e termina com a questão da teodiceia e suas interpretações. Apenas no segundo sermão, na quarta-feira seguinte, as opções foram consideradas”.
Para o pesquisador, o estilo, o humor e o conteúdo dos textos apontam claramente para a autoria de Agostinho.

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A confirmação não veio de imediato. Como já houve casos de textos falsamente atribuídos a Santo Agostinho, Tornau e o especialista Clemens Weidmann conduziram uma análise textual detalhada e organizaram, no outono de 2025, uma escola de verão em Viena com vinte latinistas especializados para examinar e discutir os textos. A conclusão foi unânime: os sermões são autênticos.
Vatican News relata também que Padre Caruso, ao comentar a metodologia adotada, observou que “a presença desses textos junto a sermões certamente agostinianos já é um indício” e que a análise do usus scribendi (o estilo de escrita) revelou padrão “inteiramente compatível com o de Agostinho.”
A edição crítica dos dois sermões, preparada por Tornau em colaboração com a professora Dorothea Weber e o pesquisador Clemens Weidmann, está prevista para ser publicada pelo Corpus Scriptorum Ecclesiasticorum Latinorum até o final de 2026.
Não é a primeira vez que textos inéditos de Santo Agostinho emergem de arquivos esquecidos. Em 1975, o pesquisador Divjak redescobriu 27 cartas inéditas em Marselha. Em 1990, Dolbeau identificou 26 homilias em Mainz. Em 2007, outras seis foram encontradas em Erfurt. Tornau contextualiza a proporção da descoberta atual:
“Não é um achado sensacional como os 30 escritos de Santo Agostinho descobertos em Mainz em 1990. Mas estamos acrescentando dois textos fascinantes à sua vasta obra em uma edição crítica”.
Santo Agostinho de Hipona (354–430), nascido na atual Argélia, é um dos pensadores mais influentes da história do Ocidente cristão. Bispo, teólogo e filósofo, deixou uma das maiores obras literárias da Antiguidade tardia, entre elas as Confissões, A Cidade de Deus e centenas de cartas e sermões. A sua festa litúrgica é celebrada em 28 de agosto.
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