Antes de entrar em campo, ao marcar um gol, após uma defesa difícil, jogadores de diferentes países, línguas e culturas tocam a testa, o peito e os ombros, traçando sobre o corpo o Sinal da Cruz. Essa cena é muito comum, mas para quem não conhece, pode parecer hábito ou superstição, inclusive assim o gesto foi chamado algumas vezes nas coberturas dos jogos da Copa Mundo.
O Sinal da Cruz é um dos gestos mais antigos do cristianismo e trata-se de uma declaração de fé, uma consagração e um ato de proteção.
“O cristão começa seu dia, suas orações e suas ações com o Sinal da Cruz. ‘Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém’. O batizado dedica a jornada à glória de Deus e apela para a graça do Salvador. O Sinal da Cruz nos fortifica nas tentações e nas dificuldades” (CIC § 2157).
Para entender o sinal, é preciso entender a Cruz. Antes de Cristo, ela era um instrumento de execução no Império Romano, o destino reservado aos condenados mais perigosos e foi nela que Jesus foi Crucificado, Morto e Sepultado.
Segundo o filósofo Tiago Correia da Silva, em matéria já publicada pelo IDe+, essa transformação de sentido é o centro da fé cristã:
“Até Cristo, a Cruz era, de fato, um instrumento de tortura, usado para a condenação à morte no Império Romano. Por meio desse instrumento, Deus decidiu salvar a humanidade, redimindo-a de todos os pecados. Assim, com o sofrimento e morte de Jesus na Cruz, ela passa de símbolo da morte para símbolo da vida, que nos é garantida no sacrifício salvador de Jesus.”
Ao fazer o Sinal da Cruz sobre o próprio corpo afirma que aquele sofrimento foi transformado e que a morte se tornou vida. Que a Cruz, que deveria ser o fim, foi o começo de algo que não tem fim.
A prática de fazer o Sinal da Cruz remonta ao século III. O teólogo Tertuliano, nascido por volta de 160 d.C., descrevia o costume dos cristãos de sua época:
“Quando nos pomos a caminhar, quando saímos e entramos, quando nos vestimos, lavamo-nos e iniciamos as refeições, quando vamos nos deitar, quando nos sentamos, nessas ocasiões e em todas as nossas demais atividades, persignamo-nos a testa com o Sinal da Cruz”.
São Cirilo de Jerusalém, no século IV, exortava os fiéis:
“Não nos envergonhemos de professar o Crucificado, selemos confiadamente a testa com os dedos, façamos o sinal da cruz em tudo.”
O Sinal da Cruz “assinala a marca de Cristo naquele que vai lhe pertencer e significa a graça da redenção que Cristo nos proporcionou por sua cruz” (CIC § 1235).
Como aponta o filósofo Tiago Correia da Silva, a Cruz não está apenas nos corpos dos fiéis. “Podemos encontrá-la no alto das torres de nossas igrejas, sobre o Altar onde se repete o sacrifício da Cruz na Santa Missa, em nossas casas ou mesmo sobre nosso peito. Levamos a Cruz como lembrança e farol da vida que devemos viver como cristãos.”
São João Paulo II a descreveu como “sinal de um amor sem limites”. E esse amor que um jogador está invocando quando, antes de entrar num estádio com cem mil pessoas, para por um segundo, e faz o gesto.
Em agosto de 2023, um Sinal da Cruz ganhou as manchetes do mundo (foto de destaque da matéria). Ao marcar o gol da vitória do Al-Nassr sobre o Al-Shorta do Iraque pela semifinal da Copa dos Campeões Árabes, o ídolo português Cristiano Ronaldo comemorou fazendo o Sinal da Cruz, em um país onde a expressão pública da fé cristã é restrita, já que a Arábia Saudita é uma monarquia islâmica cujos cidadãos são majoritariamente muçulmanos. O próprio Al-Nassr compartilhou as imagens da comemoração em suas redes sociais, e o gesto percorreu o mundo. Especialistas ouvidos pela imprensa na época indicaram que, pelo perfil global de Ronaldo e pelo momento de abertura internacional que a Arábia Saudita buscava construir, o atleta não sofreria punição.
Há uma diferença importante entre o Sinal da Cruz e a superstição. A superstição busca garantir um resultado por meio de um ritual e o Sinal da Cruz é pertencimento e reconhecimento de que Deus está ali, independentemente de qualquer resultado. Como já escreveu Padre Reginaldo Manzotti, o sofrimento nos aproxima do Senhor e a Cruz é o símbolo dessa proximidade. Não é promessa de vitória. É confissão de fé: “Eu acredito. Eu confio. Estou nas tuas mãos”.
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