Na época de Jesus entre Seus filhos, como humano, a terra que se cultivava, o mar de onde se tirava o peixe, a videira que dava o vinho, a figueira que frutificava ou murchava era a realidade da vida de um povo que sobrevivia do que a criação oferecia. Além do sustento material, a natureza tinha, na cultura judaica do século I, a dimensão profundamente teológica, pois era o lugar onde Deus Se manifestava, onde Sua providência se tornava visível e onde o ser humano aprendia a confiar.
Compreender como Jesus Se relacionava com o mundo criado é também compreender como o cristão é chamado a se relacionar com ele hoje. A Palestina do século I era uma sociedade agrária e pastoril, onde o trigo e a cevada garantiam o pão cotidiano.
A videira produzia o vinho, presença constante à mesa e nas festas religiosas. O azeite das oliveiras iluminava as casas e servia nos rituais do templo. Enquanto isso, as ovelhas forneciam lã, carne e leite e o Mar da Galileia, de água doce, com cerca de 20 km de comprimento, era o eixo econômico de toda a região, e sustentava famílias de pescadores como as de Simão Pedro, André, Tiago e João.
A figueira tinha papel simbólico especial, pois era sinal de prosperidade e paz na tradição profética israelita. Sentar-se à sombra da própria figueira significava viver em abundância e segurança, como evocava o profeta Miquéias:
“Cada um sentará sob a sua videira e sob a sua figueira, sem que ninguém o perturbe” (Miquéias 4,4).
Nesse contexto, a natureza não era um recurso a explorar, mas espaço onde a aliança entre Deus e Seu povo se tornava concreta. A chuva no tempo certo, a colheita abundante, o rebanho que crescia eram lidos como sinal da fidelidade de Deus. A seca, a praga, a esterilidade: sinal de ruptura. A terra era teológica.
A criação é a primeira e mais universal revelação de Deus: “Os céus narram a glória de Deus, e o firmamento proclama a obra das suas mãos” (Salmos 19,2). O Livro dos Provérbios apresenta a Sabedoria de Deus presente na ordenação do cosmos desde o princípio (cf. Provérbios 8,22-31). Para o povo de Israel, contemplar a natureza era contemplar o Criador. “A criação é o princípio e o fundamento de todas as obras de Deus” (CIC § 198).

Papa Francisco, na encíclica Laudato Si‘, publicada em 24 de maio de 2015 e dedicada ao cuidado da casa comum, atribui os parágrafos 96 a 100 à atitude de Jesus diante da criação. O Pontífice escreve que Jesus tinha um contato com a natureza que lhe emprestava um conteúdo cheio de sentido. Detinha-se para contemplar a beleza que o Pai espalhava e convidava os discípulos a reconhecerem na criação uma mensagem divina.
Papa Leão XIV aprofundou essa intuição ao destacar a sintonia entre Jesus e o mundo criado.
“Não é raro que o Mestre de Nazaré faça referência à natureza nos Seus ensinamentos. A flora e a fauna são frequentemente protagonistas nas suas parábolas. Mas, neste caso, há um claro convite à observação e à contemplação da criação, ações que visam compreender o desígnio original do Criador”, afirmou o Pontífice, citado pelo Vatican News.
De fato, os Evangelhos revelam um Jesus que conhecia profundamente o ritmo do mundo que O cercava. Ele falava de campos prontos para a colheita (cf. João 4,35), de joio e trigo que crescem juntos (cf. Mateus 13,24-30), de sementes que caem em diferentes tipos de solo (cf. Marcos 4,3-9), de árvores que se reconhecem pelos frutos (cf. Mateus 7,16-17), de flores do campo que superam a glória de Salomão (cf. Mateus 6,28-29), de pássaros que o Pai sustenta sem que semeiem nem colham (cf. Mateus 6,26).
No Sermão da Montanha, Jesus convida os discípulos a contemplarem o que os olhos já veem:
“Olhai para os pássaros do céu: eles não semeiam, nem colhem, nem ajuntam em celeiros, e vosso Pai celestial os alimenta. Não valeis vós muito mais do que eles?” (Mateus 6,26).
A natureza ensina que Deus provê. Que a ansiedade humana diante do futuro é desproporcionada em relação à fidelidade do Criador. Que “cada dia tem o seu próprio mal” (Mateus 6,34) — e sua própria graça.
Papa Leão XIV afirmou que “somente um olhar contemplativo pode transformar nossa relação com a criação e nos fazer sair da crise ecológica, cuja causa é a ruptura das relações com Deus, com o próximo e com a terra”. Por fim, segundo o Catecismo: “a criação é o princípio e o fundamento de todas as obras de Deus” (CIC § 198). Não se pode separar a fé na criação da responsabilidade pelo que foi criado.
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