Eis o Cordeiro de Deus: o que a Bíblia e a Igreja ensinam sobre esse símbolo central da fé cristã

Eis o Cordeiro de Deus: o que a Bíblia e a Igreja ensinam sobre esse símbolo central da fé cristã

Em cada Santa Missa celebrada em qualquer parte do mundo, o Sacerdote eleva a hóstia e proclama: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Felizes os convidados para a ceia do Cordeiro”. As palavras saem da boca de João Batista, no primeiro capítulo do Evangelho de João, e chegam até hoje com a mesma força de quando foram ditas às margens do Jordão. Mas o que significa, afinal, chamar Jesus de Cordeiro de Deus?

A resposta percorre toda a Sagrada Escritura, do Antigo ao Novo Testamento, e concentra, em uma única imagem redenção, sacrifício, mansidão e vitória.

A origem: o cordeiro pascal do Êxodo

Tudo começa no Egito. Na noite da libertação de Israel da escravidão, Deus ordena a Moisés que cada família escolha um cordeiro sem defeito, o imole e asperja o seu sangue nas ombreiras das portas. “Quando o Senhor passar para ferir o Egito, vendo o sangue sobre a verga e sobre as duas ombreiras da porta, passará adiante e não permitirá ao destruidor entrar em vossas casas para ferir” (Êxodo 12,23). As casas marcadas pelo sangue do cordeiro são poupadas. As que não têm esse sinal, não.

O cordeiro é um símbolo pascal de origem bíblica, utilizado na celebração da Páscoa judaica. Mas já naquele momento, a imagem carregava questões que iam além da libertação de um povo e apontavam para algo que ainda estava por vir. O cordeiro pascal dos judeus, “sem defeito, macho, de um ano” (Êxodo 12,5), cujo sangue, aspergido nas ombreiras das portas, salvaria do Anjo Exterminador, era figura do Cordeiro Imaculado cujo sangue havia de conquistar a morte e abrir aos homens a verdadeira Terra Prometida.

Isaías e o Servo sofredor

Séculos depois do Êxodo, o profeta Isaías retoma a imagem com uma profundidade nova. No quarto Cântico do Servo, um dos textos mais citados pela Igreja primitiva ao interpretar a morte de Jesus, o Servo de Deus é descrito como alguém que carrega o sofrimento de todos sem abrir a boca: “Como cordeiro que é levado ao matadouro ou como ovelha que emudece diante do tosquiador, ele não abriu a boca” (Isaías 53,7). A mansidão diante do sacrifício. A ausência de resistência e o sofrimento assumido livremente era um dos títulos messiânicos aplicados a Jesus conforme o profeta Isaías.

João Batista e a revelação no Jordão

É nesse contexto bíblico denso que João Batista aponta para Jesus e pronuncia a frase que a liturgia repetiria por séculos: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1,29). A expressão faz parte da liturgia e é muito rica em ressonâncias bíblicas e se refere ao cordeiro pascal da libertação do Egito.

A novidade que João anuncia é ao mesmo tempo simples e vertiginosa: em vez de sacrificar cordeiros, o sacrificado é Cristo na Cruz. Deus se oferece em sacrifício de modo inofensivo, que não mata e nem se impõe. Normalmente consideramos que quem muda o mundo é quem se impõe e quem é competitivo, por isso é tão difícil compreender que um cordeiro possa tirar o pecado do mundo.

João usa o singular: o pecado, não os pecados. O evangelista João fala do pecado no singular doze vezes no Evangelho. O Catecismo responde que para tentarmos compreender o que é o pecado, é preciso antes de tudo reconhecer a ligação profunda do homem com Deus, pois fora desta relação o mal do pecado não é desmascarado na sua verdadeira identidade de recusa e de oposição face a Deus.

O Cordeiro no Apocalipse: vitorioso e glorioso

A imagem do cordeiro não desaparece com a morte de Jesus, mas se transforma. No livro do Apocalipse, o Cordeiro aparece no centro do trono celeste, digno de receber adoração eterna. O livro do Apocalipse está repleto de referências ao “Cordeiro” (Apocalipse 5,6-14), que é mostrado como digno de abrir o livro selado e que está no centro da adoração celestial. O Cordeiro é glorificado, embora carregue os sinais do seu sacrifício, sublinhando a ligação entre a redenção através de Cristo e seu sacrifício expiatório.

Jesus é o novo cordeiro pascal, cujo sacrifício traz a vida e a salvação; Sua morte coincide com o sacrifício dos cordeiros no Templo de Jerusalém, segundo a narrativa joanina da Paixão. Toda essa riqueza bíblica e teológica desemboca na liturgia da Missa. A expressão Agnus Dei foi formalmente introduzida na liturgia católica no século VII, sob o pontificado do Papa Sérgio I. É recitada ou cantada durante a fração do pão na Missa, logo antes da Comunhão. Nesse momento da liturgia, os fiéis reconhecem sua necessidade de misericórdia e pedem a paz que vem de Cristo, o Cordeiro imolado. O Agnus Dei é recitado três vezes, pedindo misericórdia em cada vez, e finalmente, paz.

Na iconografia cristã, Jesus é representado por um Cordeiro, como nas imagens de São João Batista, que apresentou Jesus aos primeiros discípulos como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Toda essa riqueza dos símbolos pascais quer ajudar a compreender e a viver o verdadeiro sentido da Páscoa.

A imagem percorre toda a revelação divina com uma coerência que só a fé consegue reconhecer plenamente. Cada vez que o fiel responde antes de receber a Comunhão está ecoando o mesmo gesto do servo que, nas margens do Jordão, reconheceu no Cordeiro o Senhor que vem ao seu encontro.

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