Nos jardins onde papas passaram seus verões por séculos, aconteceu este ano a primeira colheita de uvas e a produção de cerca de 5 mil garrafas de vinho. Essa é a concretização mais surpreendente de um projeto que o Papa Francisco sonhou e o Papa Leão XIV inaugurou: o Borgo Laudato Si’, um complexo de agricultura regenerativa, educação ambiental e inclusão social instalado nos 87 acres de jardins e 50 acres de terras agrícolas da residência papal de Castel Gandolfo, a 25 quilômetros ao sul de Roma.
A primeira produção resultou em cerca de 5 mil garrafas de Cabernet Sauvignon, em uma iniciativa de caráter essencialmente institucional e simbólico. O vinho não terá como destino as prateleiras de supermercados, tampouco integra uma vinícola voltada ao mercado global. A colheita envolve técnicas de agricultura regenerativa e a participação de trabalhadores locais, refugiados e jovens em situação de vulnerabilidade. Esse conjunto é algo simbólico que conecta a Santa Sé a temas contemporâneos como meio ambiente, trabalho rural e responsabilidade social.
A confirmação da primeira safra teve repercussão na imprensa especializada europeia, com veículos italianos e especializados no tema destacando o caráter inédito do projeto e o debate mais amplo que ele abre sobre sustentabilidade no campo e o futuro da agricultura.
O Borgo Laudato Si’ foi oficialmente inaugurado pelo Papa Leão XIV em 5 de setembro de 2025, em celebração ao décimo aniversário da encíclica Laudato Si’. Com salas de aula alimentadas por energia solar, uma estufa circular, terras agrícolas e jardins abertos ao público, o centro promove sustentabilidade, economia circular e cuidado com a criação. Saiba mais sobre o lugar na matéria “Um santuário para a Casa Comum: Vaticano inaugura o Borgo Laudato Si’”.
O projeto abrange os 55 hectares da área extraterritorial em Castel Gandolfo, divididos em 35 hectares de jardins e 20 hectares de terrenos agrícolas, estufas e edifícios de serviço. A gestão da área, antes exclusivamente papal, foi transferida ao Centro de Ensino Superior Laudato Si’, entidade independente da Santa Sé, que adquiriu o perímetro em janeiro de 2024.
O vinhedo ocupa aproximadamente dois hectares da propriedade e foi desenvolvido com apoio técnico da Universidade de Udine. A meta, quando atingir capacidade plena, é produzir aproximadamente 20 mil garrafas por safra, destinadas às atividades institucionais do Vaticano e aos visitantes do Borgo. Quando Papa Leão XIV inaugurou o espaço, estava presente uma delegação de altos executivos liderada por Paul Palmon, ex-CEO da Unilever e referência global em liderança empresarial comprometida com a economia sustentável.
O dado mais significativo do projeto está em quem o produz. O cultivo das cerca de oito mil videiras envolve refugiados, migrantes e jovens em situação de vulnerabilidade, que recebem capacitação em agricultura sustentável, hospitalidade e manejo rural, integrando uma proposta baseada na economia circular e na formação profissional. O sistema de irrigação foi projetado para causar o menor impacto possível no lago Albano, nas proximidades, e toda a estrutura funciona com energia fotovoltaica.
O Centro de Alta Formação do Borgo receberá estudantes de todas as idades, desde o ensino fundamental até universitários e CEOs de grandes empresas. A expectativa é que 250 mil pessoas visitem o Borgo por ano. Quem estiver em dificuldades financeiras poderá entrar gratuitamente.
Os investimentos privados captados pelo projeto precisam ser compatíveis com os valores da ecologia integral, e o retorno esperado é de quatro a sete anos, tempo suficiente para provar que sustentabilidade e viabilidade financeira não são opostos.
A presença da Igreja no universo da produção agrícola sustentável vai além. Há iniciativas associadas à Santa Sé em outras regiões da Itália, como o projeto Laudato Sie, desenvolvido no norte do país em parceria com produtores locais, reforçando o vínculo entre os valores da encíclica e o setor agrícola italiano de forma mais ampla. O movimento, na leitura de especialistas, tem menos a ver com inserção no mercado e mais com posicionamento: mostrar que os princípios da Laudato Si’ são operacionalizáveis, verificáveis e capazes de gerar trabalho digno e valor econômico real.
A encíclica Laudato Si’, publicada em 2015 pelo Papa Francisco, é o documento de referência de todo o projeto. O título vem do Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis: “Louvado sejas, meu Senhor”, e a mensagem central pode ser resumida numa frase que o próprio Francisco repete três vezes ao longo do texto: “tudo está conectado.”
O ser humano não está separado da natureza e ambos fazem parte de uma única casa comum. Destruir a criação é uma questão moral, espiritual e social. A encíclica propõe o conceito de “ecologia integral”, que é a ideia de que não se pode cuidar da natureza sem cuidar das pessoas, especialmente as mais vulneráveis, e que não se pode construir uma sociedade justa sem cuidar da terra que a sustenta.
O Borgo Laudato Si’ é uma tentativa de fazer esse conceito sair do papel e entrar no solo. Cada videira plantada com o trabalho de um refugiado, garrafa produzida sem agrotóxicos e painel solar no telhado da estufa circular é uma resposta concreta ao convite da encíclica.

Foto: reprodução site Borgo Laudato Si’
Ao inaugurar o Borgo Laudato Si’, o Papa Leão XIV afirmou que a conversão ecológica não é apenas um tema técnico, mas espiritual. “Esta conversão nos permitirá transformar a realidade e construir um mundo mais justo e fraterno”, disse o Papa. A escolha de inaugurar o projeto no décimo aniversário da Laudato Si’ foi deliberada, uma forma de dizer que o ensinamento de Francisco não encerrou com o pontificado, mas continua a produzir frutos. Literalmente.
O que é o Borgo Laudato Si’?
É um projeto de ecologia integral instalado nos jardins papais de Castel Gandolfo, inaugurado pelo Papa Leão XIV em setembro de 2025. Reúne agricultura regenerativa, educação ambiental, formação profissional e inclusão social, inspirado na encíclica Laudato Si’ do Papa Francisco.
O Vaticano vai vender vinho?
Não no sentido comercial tradicional. A produção é institucional e simbólica, com cerca de 5 mil garrafas na primeira safra, destinadas às atividades do Vaticano e aos visitantes do Borgo. A meta futura é de 20 mil garrafas por safra.
Quem trabalha no vinhedo do Vaticano?
Refugiados, migrantes e jovens em situação de vulnerabilidade, que recebem capacitação profissional em agricultura sustentável como parte do projeto de economia circular do Borgo.
O que é a encíclica Laudato Si’?
É um documento do Papa Francisco, publicado em 2015, sobre o cuidado da casa comum. Defende a ecologia integral – a ideia de que cuidar da criação, das pessoas e da economia são partes de uma mesma missão cristã. É uma das mais importantes contribuições da Igreja Católica ao debate ambiental contemporâneo.
O projeto existe só em Castel Gandolfo?
Não. Há iniciativas associadas à Santa Sé em outras regiões da Itália, como o projeto Laudato Sie, desenvolvido no norte do país em parceria com produtores locais.
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