Peregrinação – foto Foto: Archidiecezja Katowicka
Em agosto de 2026, após a oração do Angelus em Castel Gandolfo, Papa Leão XIV interrompeu suas saudações habituais para estender uma bênção especial a um grupo de mulheres reunidas a mais de dois mil quilômetros de distância, em um santuário polonês da Alta Silésia. “Estendo minha bênção aos muitos participantes da tradicional peregrinação ao Santuário de Piekary Śląskie”, disse o Santo Padre. Quem não conhece a história do lugar pode ter estranho a ênfase, mas quem conhece, entendeu imediatamente.
Piekary Śląskie é um dos locais de peregrinação mais importantes da Polônia, logo depois de Częstochowa. Desde o século XVII, a cidade é destino de peregrinação e centro do culto mariano na Alta Silésia. A devoção à imagem milagrosa de Nossa Senhora de Piekary está ligada, pela tradição local, à proteção dos habitantes de Tarnowskie Góry de uma epidemia de peste em 1680. A pintura mais antiga de Nossa Senhora de Piekary, datada dos séculos XV ou XVI, foi coroada oficialmente em 15 de agosto de 1925, com coroas abençoadas pessoalmente pelo Papa Pio XI.

Nossa Senhora de Piekary
As mais antigas peregrinações registradas a Piekary foram as de Tarnowskie Góry em 1676 e de Opole em 1681. O rei Jan III Sobieski parou para venerar a imagem quando conduzia seu exército a Viena para deter a invasão turca da Europa. O Santuário foi palco de momentos decisivos da história polonesa e silesiense, um povo que resistiu à germanização, à opressão e a séculos de fronteiras em disputa, mas nunca deixou de voltar a Piekary.
Há duas peregrinações anuais especiais: a dos homens e jovens, e a das mulheres e donzelas, que reúnem até 100 mil participantes, principalmente da Alta Silésia. São eventos separados, com datas distintas, e cada um carrega seu próprio peso espiritual e histórico. A peregrinação feminina, chamada Peregrinação de Mulheres e Meninas, é descrita pela Vatican News como um dos fenômenos religiosos mais marcantes de toda a região.
O cardeal August Hlond, da Igreja polonesa, deixou uma frase que o padre Rafał Skitek, porta-voz da Arquidiocese de Katowice, gosta de repetir: quem quiser compreender a alma e a fé do povo silesiano deve visitar Nossa Senhora de Piekary. Quando os ensinamentos da Igreja eram perseguidos e silenciados por questões políticas locais, Piekary se tornou um lugar importante para a proclamação da dignidade dos trabalhadores, seus direitos e responsabilidades, e os princípios da doutrina social católica. O “Evangelho do trabalho”, como Padre Skitek define, ressoava com particular força numa região de mineiros e operários que encontravam no santuário fé, identidade e resistência.
São João Paulo II, como arcebispo metropolitano de Cracóvia, ia todos os anos em peregrinação a Nossa Senhora de Piekary. “Para mim era sempre uma experiência profunda.” A partir de 1965, Karol Wojtyła foi a Piekary quase todos os anos, pregando homilias sobre o trabalho e a dignidade humana. Depois de se tornar Papa, continuou a enviar telegramas, cartas ou mensagens gravadas.

Imagem: DyziO / Shutterstock.com
Dominika Szczawińska participa da peregrinação das mulheres de Piekary há mais de 20 anos. Para ela, a continuidade desse caminho é também o mapa da própria vida. “Eu costumava vir aqui quando era jovem esposa, rezando por um filho, depois como jovem mãe, e hoje sou mãe de adolescentes”, disse ela à Vatican News.
“As mulheres precisam umas das outras. O apoio, a sensibilidade e a empatia femininas são importantes tanto na vida espiritual quanto na vida cotidiana.”
Avós, mães, filhas, netas, amigas e também adolescentes. O santuário acolhe todas as etapas da vida feminina e isso faz da peregrinação de Piekary algo difícil de explicar para quem nunca a viveu. Para Dominika, o santuário é um lugar onde se pode expressar gratidão, pedir perdão e simplesmente estar com outras mulheres diante de Maria.
Ao acolher as peregrinas neste ano, o arcebispo Andrzej Przybylski, metropolita de Katowice, apresentou Maria como modelo de dignidade e humildade feminina.
“O mundo precisa de mulheres sábias e humildes, isto é, mulheres que não têm medo de se humilhar perante Deus e que estão prontas para fazer grandes coisas por Deus e pela humanidade. Ninguém tem o direito de feri-las ou humilhá-las. Cada uma de vocês é chamada a grandes coisas e, acima de tudo, à santidade.”
O ponto central do encontro foi a solene Eucaristia presidida pelo arcebispo Zbigniew Zieliński, metropolita de Poznań. E da Itália chegou a voz do Papa Leão XIV, que, após o Angelus em Castel Gandolfo, enviou sua bênção às milhares de participantes, dando continuidade a uma tradição que São João Paulo II manteve por décadas e que os papas nunca deixaram de reconhecer.
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