Professora de teatro cria o “Liturgia Kids” e lota igreja evangelizando crianças em Curitiba

Professora de teatro cria o “Liturgia Kids” e lota igreja evangelizando crianças em Curitiba

Era Domingo de Ramos de 2025 e a Igreja estava lotada. Em meio a celebração, Emília, de quatro anos, já não aguentava mais ficar quieta. Daniela Rodrigues, tia e professora de teatro com quinze anos de estrada, pegou o então o celular para procurar algum aplicativo cristão sobre a liturgia do dia, mas não encontrou nada que não dependesse da leitura. Emília acabou pintando princesas e animais enquanto a celebração acontecia e o problema então estava resolvido por aquela hora, mas não saiu da cabeça de Daniela.

Quando chegou em casa, ela passou a madrugada pesquisando, fez levantamento de mercado, vasculhou plataformas, consultou dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre o número de crianças pequenas no Brasil. “Lá pelas quatro da manhã, eu já tinha um esboço do aplicativo”. Na manhã seguinte, pediu uma reunião com o pároco e, com a validação e o incentivo dele, foi atrás de investidores, algo que uma professora de teatro nunca havia feito antes na vida.

“Eu nunca tinha falado com empresários, nunca tinha participado de uma reunião de projeto comercial. Mas fui falando, apresentando o projeto, e Deus foi abrindo os caminhos e colocando as pessoas certas”, conta.

Assim nasceu o Liturgia Kids: um projeto de evangelização infantil que hoje reúne um aplicativo disponível na App Store e no Google Play e uma Santa Missa especialmente pensada para crianças que acontece na Igreja Histórica do bairro Portão, em Curitiba (PR).

A evangelizadora que criou o projeto

Daniela é a terceira de cinco filhos. Seus pais se conheceram no grupo de jovens e a criaram dentro da Igreja Católica. A família é Oblata de São José de berço, espiritualidade que moldou desde cedo sua compreensão do trabalho como serviço e da vida como oferta. Seus pais funcionaram como espelhos de São José ao longo de toda a infância dos filhos. 

Foi coroinha, coordenadora de grupo de jovens, diretora de teatros da Paixão de Cristo. Além do Liturgia Kids, Daniela dá aula em duas escolas e num centro de cultura. Todos os dias, antes de entrar em sala, convida Deus para lecionar junto.

Após a ideia

O aplicativo nasceu de uma inspiração, da criatividade, da ousadia e de uma noite sem dormir. Durante anos, a cada celebração dominical, algo crescia dentro de Daniela, um pensamento de que deveria fazer uma Santa Missa para as crianças, uma contação de histórias na leitura. O impulso foi ficando cada vez mais alto até que reuniu os amigos com quem compartilha caminhada de fé há cerca de 14 anos e apresentou a ideia, aceita por todos na hora. Aquele grupo, formado ao longo de mais de uma década de comunidade, era composto inteiramente por profissionais das áreas de arte e educação para a primeira infância.

Havia uma professora e pastoralista cuidando da logística, uma profissional de dança responsável pelo Glória e pelo Salmo, músicos que compuseram canções autorais em linguagem acessível às crianças, além de um padre com didática e humor que, nas palavras de Daniela, “fala ao coração dos pequenos”. “Foi muito bonito perceber que Deus estava nos preparando para aquilo havia muito tempo”, reflete.

Cada detalhe da celebração foi desenhado com atenção pedagógica. Um anjinho percorre uma barra inferior nos slides durante toda a Santa Missa, para que as crianças tenham uma previsão do tempo da celebração e a ansiedade diminua, recurso que também beneficia pessoas neurodivergentes. A primeira leitura é feita em forma de contação de histórias, o Evangelho é ilustrado no telão.

No ofertório, as crianças levam cartinhas com desenhos e, em certos momentos do desenvolvimento infantil, podem ofertar chupetas e mamadeiras ao encerrar esse ciclo. Quando Daniela explicou esse detalhe a Dom José Antônio Peruzzo, Arcebispo de Curitiba, ele gargalhou e perguntou: “Como nunca pensamos nisso antes?”.

Na primeira Santa Missa, Daniela chorou do começo ao fim. No final, uma criança saiu dizendo: “Foi a melhor Missa que eu já fui”. No Corpus Christi deste ano, crianças de dois a doze anos fizeram juntas o tapete em frente à Catedral. Pequenos que não apenas assistiram ao que os adultos faziam, mas entenderam que aquele espaço também lhes pertence.

A premissa do projeto é que uma criança não precisa saber ler para compreender. Muitos livros de literatura infantil não têm texto, são narrativas inteiramente visuais e funcionam. Era isso que Daniela queria para o Liturgia Kids.

Assim, ela desenvolveu uma distinção que aplica a cada passagem bíblica trabalhada no projeto. O primeiro tipo são as cenas históricas, como a multiplicação dos pães, a abertura do Mar Vermelho, as parábolas, que precisam ser representadas como são. O segundo tipo ela chama de mensagem de valor, especialmente presente nas cartas do Novo Testamento. Nesses casos, ilustrar um Apóstolo escrevendo não diz nada à criança pequena e a solução é identificar o valor central da mensagem e traduzir isso para uma situação da realidade infantil, para que a criança se enxergue naquela imagem.

“A criança talvez ainda não consiga ler as palavras, mas já consegue ler uma cena, uma expressão, uma atitude e entender o que aquilo quer dizer”, explica. 

Famílias como parceiras

Todo mês, Daniela disponibiliza gratuitamente no grupo de WhatsApp do Liturgia Kids um PDF com ilustrações das liturgias dominicais e um resumo para ajudar na compreensão. Muitas famílias passaram a usar o material como devocional semanal em casa. Para ela, esse uso revela algo que está no centro do projeto: não é preciso esperar a catequese para apresentar a fé a uma criança.

“A criança vai construindo memórias afetivas e sensoriais com essa vivência: o cheiro do incenso, o som dos ritos, as músicas, a procissão, o espaço da igreja. Mesmo que ela ainda não compreenda racionalmente tudo o que está acontecendo, está vivendo aquilo ao lado de pessoas com quem possui uma relação de afeto, e acredito muito na força dessas memórias. Talvez, quando crescer, essa criança passe por momentos em que se sinta deslocada, perdida, talvez até se afaste. Mas um dia, ao sentir novamente o cheiro do incenso, ouvir um rito litúrgico ou simplesmente entrar em uma igreja, alguma coisa dentro dela vai reconhecer aquele lugar.”

O objetivo é ajudar as famílias a construírem, desde muito cedo, uma ponte de segurança emocional entre a criança e a Igreja e uma memória anterior a qualquer explicação doutrinária.

O digital como território a ser habitado

Daniela cresceu ouvindo a carta de São João Paulo II sobre os santos de calça jeans, aqueles que vivem no mundo sem serem alterados por ele, que são internautas. Cita São Carlo Acutis, nascido no mesmo ano que ela, em 1991, como alguém que viveu a santidade dentro do ambiente digital. A partir daí constrói sua posição sobre tecnologia e primeira infância: não fingir que o território não existe, mas habitá-lo com discernimento.

Ela lembra que, quando era pequena, sua mãe levava uma caixa de brinquedos para a Santa Missa. Isso não a impediu de crescer com reverência pelo sagrado, e pelo contrário, permitiu que crescesse dentro daquele ambiente. “Hoje, de certa forma, o celular é essa caixa e cada aplicativo é um brinquedo”.

Aos pais, seu conselho é conhecer qualquer aplicativo antes de entregá-lo aos filhos, usar os recursos de segurança infantil disponíveis nas plataformas e seguir as orientações pediátricas sobre tempo de tela. O aplicativo do Liturgia Kids foi pensado para que, durante a Santa Missa, a criança possa colorir aquilo que o padre está falando, traduzido para sua linguagem, enquanto permanece naquele ambiente e participa, à sua maneira, do que está acontecendo.

Ela acrescenta um sonho concreto: que todo o conteúdo do aplicativo seja produzido exclusivamente por ilustradores humanos, sem inteligência artificial. “A arte faz parte da minha vida e eu acredito muito no valor do talento humano”. Por enquanto, o volume de conteúdo e a ausência de retorno financeiro ainda não permitem isso integralmente, mas o caminho está traçado. O aplicativo custa menos de dez reais por mês em seus planos pagos e cada assinatura ajuda a remunerar os artistas envolvidos.

Vocação leiga

No mês em que a Igreja se dedica a refletir sobre os chamados, Daniela Rodrigues reflete sobre a sua missão. “Eu sei das minhas limitações, conheço a minha miséria e sei que Deus não precisava de mim para fazer nada disso. Mas, ainda assim, Ele permitiu que eu fizesse parte de um pedacinho do seu projeto de amor e que colocasse aquilo que sei fazer a serviço da evangelização das crianças”.

Como Oblata de São José, aprendeu desde pequena que cuidar dos interesses de Jesus é tarefa concreta, exercida com os próprios talentos, no cotidiano ordinário. Ela percebe que o Liturgia Kids é uma das formas que Deus lhe deu de evangelizar e viver a vocação leiga de maneira inteira e a serviço. 

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Comentários

  • Marcia Laranjeira
    Parabéns professora Daniela, que Deus continue iluminando a sua mente seu coração na evangelização no Liturgia Kids.
  • gilson
    Conheço a Daniela desde a sua infância e sou grato a Deus por fazer parte da sua vida.
  • Gilson
    Faço parte desta equipe maravilhosa Liturgia Kids e, bem, vim a Daniela crescer literalmente. Deus abençoe esse projeto

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