Sim, o lugar onde Maria recebeu do Anjo Gabriel o anúncio de que seria a Mãe de Jesus existe e pode ser visitado até hoje. É a Gruta da Anunciação, pequena cavidade na rocha preservada no andar inferior da Basílica da Anunciação, em Nazaré, cidade da Galileia que hoje faz parte de Israel. O Santuário é cuidado pelos frades franciscanos da Custódia da Terra Santa e guarda a memória do episódio narrado no Evangelho de São Lucas (1,26-38).
Quem desce até a gruta encontra um altar simples, com uma frase em latim gravada: Verbum caro hic factum est, que significa “o Verbo aqui se fez carne”. Todos os dias, ao meio-dia, os fiéis rezam ali o Angelus, a oração que começa recordando que o Anjo do Senhor anunciou a Maria.
Segundo o Evangelho de Lucas, Deus enviou o Anjo Gabriel a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem prometida em casamento a José, descendente de Davi. O Anjo a saúda como “cheia de graça” e anuncia que Ela conceberá um filho, a quem dará o nome de Jesus. Maria fica perturbada, pergunta como aquilo seria possível e ouve que o Espírito Santo viria sobre Ela, porque para Deus nada é impossível.
“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lucas 1,38).
Na audiência geral de 22 de janeiro de 2025, Papa Francisco lembrou que Gabriel foi enviado a “uma aldeia nunca mencionada na Bíblia hebraica”, um povoado pequeno na periferia de Israel e ali, longe do Templo de Jerusalém e dos grandes centros, que Deus escolheu começar a história da salvação em carne humana.
O Catecismo da Igreja Católica explica que a Anunciação inaugura a “plenitude dos tempos”, o momento em que as promessas feitas por Deus ao Seu povo começam a se cumprir (n. 484). O texto ensina ainda que, ao acolher a palavra do Anjo pela obediência da fé, Maria Se tornou Mãe de Jesus e pronunciou o Seu “faça-se” em nome de toda a humanidade (n. 494 e 511).
Em 1955, quando a antiga igreja do local foi demolida para dar lugar ao santuário atual, os franciscanos aproveitaram a obra para escavar o terreno. As pesquisas, conduzidas pelo arqueólogo frei Bellarmino Bagatti, revelaram parte do vilarejo de Nazaré da época de Jesus: casas simples construídas junto a grutas escavadas na rocha, que serviam para o trabalho doméstico e para guardar mantimentos e animais. A gruta venerada fazia parte de uma dessas moradias.
Sob os mosaicos de uma igreja bizantina, os escavadores encontraram ainda os restos de um local de oração mais antigo, com marcas claras de veneração cristã. Entre as descobertas está a base de uma coluna com a saudação do Anjo gravada em grego, Chaire Maria, ou “Alegra-te, Maria”, considerada o registro arqueológico mais antigo da Ave-Maria.

Os relatos de peregrinos ajudam a completar essa história. Por volta do ano 383, a peregrina Egéria descreveu uma gruta grande e bonita, com um altar, onde Maria teria vivido. No século VI, outro viajante registrou que a casa de Maria havia se transformado em igreja. Depois vieram uma basílica bizantina e uma imponente catedral construída pelos cruzados no século XII, destruída em 1263 pelas tropas do sultão Baibars. A gruta escapou da destruição e, por quase cinco séculos, foi o único espaço daquele conjunto que os peregrinos conseguiam visitar, mediante o pagamento de uma taxa.
Os franciscanos tomaram posse do lugar em 1620 e, em 1730, conseguiram autorização para erguer uma nova igreja sobre a gruta, que precisou ficar pronta em apenas seis meses. Esse templo foi usado até a década de 1950.
O Santuário atual foi projetado pelo arquiteto italiano Giovanni Muzio, que abriu mão dos honorários por se apaixonar pela obra, e consagrado em 23 de março de 1969, depois de oito anos de construção. Com 55 metros de altura, a Basílica é conhecida como o maior templo do gênero no Oriente Médio, e sua cúpula, em formato de lírio invertido, é vista de vários pontos da cidade.
O prédio foi pensado em dois andares que conversam entre si. Na basílica inferior, a luz é baixa e o olhar se volta naturalmente para a gruta, cercada pelos vestígios das igrejas que a protegeram ao longo dos séculos. Lá dentro, uma coluna quebrada recebeu dos peregrinos medievais o nome de “coluna da Virgem”, porque se acreditava que marcava o ponto onde Maria estava durante o anúncio.
A Basílica superior é clara e colorida. Dedicada a Maria, Mãe da Igreja, reúne nas paredes imagens de Nossa Senhora enviadas por diferentes países, entre eles o Brasil. No centro do piso, uma grande abertura deixa ver a gruta lá embaixo, de modo que quem reza no andar de cima nunca perde de vista o lugar do “sim”.
São Paulo VI visitou as obras do Santuário em 1964, durante sua peregrinação à Terra Santa, e definiu Nazaré como “a escola do Evangelho”. São João Paulo II escolheu uma data simbólica para sua visita. Em 25 de março de 2000, festa da Anunciação no ano do Grande Jubileu, celebrou a Santa Missa na Basílica depois de rezar em silêncio diante da gruta. Ele deixou de presente uma Rosa de Ouro, que até hoje é levada em procissão ao redor da gruta a cada 25 de março.
Em maio de 2009, foi a vez de Bento XVI, que presidiu a oração das Vésperas na Basílica superior e disse estar profundamente comovido por rezar no lugar onde a Palavra de Deus se fez carne.
A rotina de oração continua. A Basílica inferior abre diariamente das 5h45 às 21h, há Santa Missa na gruta todas as manhãs e, aos sábados, uma procissão com velas percorre o pátio do Santuário. Às terças-feiras, os frades rezam a Coroa de Nazaré, uma devoção própria do lugar dedicada às famílias do mundo inteiro. Quem não pode viajar acompanha as celebrações pelas transmissões ao vivo do centro de comunicação da Custódia.
O ano de 2026, porém, tem sido de silêncio em Nazaré. Na festa da Anunciação, em março, o cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, contou na homilia que as ruas estavam mais vazias, que o eco dos passos dos peregrinos era “quase uma lembrança” e que a situação de emergência na região impedia grandes celebrações. Ainda assim, convidou os fiéis a olhar para Maria e a reconhecer que Deus continua pedindo um “sim” mesmo em meio à guerra e à incerteza.
A própria gruta exige cuidados constantes, pois a rocha é frágil e sofre com a umidade. A Custódia já precisou abrir pequenos orifícios para ventilar o espaço e até fechá-la temporariamente para estudar a melhor forma de conservá-la.
Diante de uma gruta simples, parcialmente rebocada e sem nenhum luxo, o peregrino entende que a salvação começou com uma jovem que fez perguntas sinceras, ouviu a resposta e confiou. É esse mesmo caminho que a Igreja propõe a cada fiel quando reza, ao meio-dia, que o anjo do Senhor anunciou a Maria.
Saiba mais:
Devoção a Nossa Senhora da Anunciação: a celebração do “sim” de Maria
Onde Maria recebeu o anúncio do Anjo Gabriel?
Em Nazaré, na Galileia, segundo o Evangelho de Lucas. A tradição da Igreja identifica o local com a Gruta da Anunciação, preservada na Basílica da Anunciação, hoje em Israel.
Qual passagem da Bíblia narra a Anunciação?
O relato está em Lucas 1,26-38. O anúncio do Anjo a José aparece em Mateus 1,18-25.
É possível visitar a Gruta da Anunciação?
Sim. A Basílica inferior, onde fica a gruta, abre diariamente das 5h45 às 21h. Grupos que desejam celebrar missa no local precisam fazer reserva com antecedência junto ao Santuário.
A casa de Maria está em Nazaré ou em Loreto?
Em Nazaré fica a gruta que a tradição identifica como parte da casa da Sagrada Família. Em Loreto, na Itália, venera-se desde a Idade Média a Santa Casa, ligada à mesma memória. Desde 2019, Nossa Senhora de Loreto é celebrada em 10 de dezembro no calendário da Igreja.
Por que existem duas igrejas da Anunciação em Nazaré?
A Basílica católica guarda a gruta associada à casa de Maria. A igreja greco-ortodoxa de São Gabriel, construída sobre a chamada Fonte de Maria, recorda uma tradição antiga, registrada em um texto apócrifo, segundo a qual o Anjo teria saudado Maria primeiro junto à fonte.
Quando a Igreja celebra a Anunciação?
Em 25 de março, nove meses antes do Natal. Quando a data cai na Semana Santa, a solenidade é transferida para depois da Páscoa.
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