Ao abordar ou pensar o cristianismo na Índia, a primeira imagem que costuma surgir é a de missionários europeus chegando ao país a partir da era das grandes navegações. A história, porém, é bem mais antiga e também mais complexa. No sul da Índia, comunidades cristãs preservam uma tradição que remonta ao Apóstolo São Tomé, enquanto diferentes Igrejas desenvolveram ao longo dos séculos formas próprias de celebrar a fé dentro da cultura indiana.
A dimensão desse cristianismo também muda bastante conforme a região. Em escala nacional, os cristãos são uma pequena minoria: o Censo indiano de 2011 registrou pouco mais de 2% da população como cristã, proporção que, segundo o Pew Research Center, permanece entre 2% e 3% desde o primeiro censo realizado após a independência. O centro de pesquisas, no entanto, observa que pode haver subnotificação de cristãos nos dados oficiais.
Ao mesmo tempo, há estados indianos onde os cristãos são maioria. Kerala, no sul, concentra o maior número absoluto de cristãos do país, enquanto Nagaland, Mizoram e Meghalaya, no Nordeste, tinham maioria cristã no Censo de 2011. Essa diversidade regional ajuda a explicar por que não existe uma única maneira de falar sobre “o cristianismo indiano”.
Uma das histórias mais antigas e importantes do cristianismo indiano está ligada a um dos Doze Apóstolos. Segundo uma tradição preservada pelas comunidades conhecidas como cristãos de São Tomé, o Apóstolo chegou à Índia por volta do ano 52 e iniciou ali uma missão entre comunidades judaicas e outros habitantes da região.
Vatican News registra essa tradição ao apresentar a história de São Tomé: depois de passar pelo Oriente, o Apóstolo teria chegado à costa do Malabar, atual Kerala, onde os chamados cristãos de São Tomé identificam sua origem. A tradição também situa seu martírio em território indiano, em Chennai, no atual Estado de Tamil Nadu, por volta do ano 72.
É importante, porém, fazer uma distinção que costuma desaparecer em textos sobre o tema. A chegada de Tomé à Índia no ano 52 é uma tradição cristã antiga, preservada pelas comunidades e pela tradição eclesial; a data exata e todos os detalhes dessa viagem não podem ser tratados como fatos históricos comprovados da mesma maneira que um acontecimento documentado por fontes contemporâneas. Para os cristãos de São Tomé, entretanto, essa memória é parte da identidade de comunidades que existem há muitos séculos no subcontinente indiano.
Em 2021, representantes de diferentes Igrejas cristãs na Índia passaram a celebrar o dia 3 de julho, festa de São Tomé, também como “Dia dos Cristãos Indianos”. A iniciativa procura destacar a identidade cristã desenvolvida dentro da herança cultural indiana.
Essa talvez seja uma das maiores surpresas para quem conhece a história do cristianismo na Índia apenas pela presença europeia. Os portugueses chegaram à costa indiana no fim do século XV. Vasco da Gama desembarcou em Calecute, atual Kozhikode, em 1498. Mas comunidades cristãs já estavam estabelecidas no sul do país muitos séculos antes disso.
Essa antiguidade que está por trás dos cristãos de São Tomé. A tradição os vincula à missão do Apóstolo e, ao longo dos séculos, essas comunidades mantiveram relações com as tradições cristãs do Oriente, especialmente com a tradição siríaca. Por isso, reduzir o cristianismo indiano à evangelização europeia seria historicamente impreciso. A presença portuguesa e posteriormente jesuíta teve enorme importância para determinadas regiões e comunidades, mas ela representa o início da presença cristã no país.
A Igreja Siro-Malabar, uma das principais Igrejas católicas da Índia, afirma sua identidade a partir da tradição apostólica de São Tomé e da antiga presença cristã na região do Malabar.
Quem entra em uma igreja católica na Índia pode encontrar uma celebração bastante diferente daquela à qual um católico brasileiro está acostumado. E isso não significa que esteja diante de uma Igreja separada de Roma. A Igreja Católica na Índia é formada por três Igrejas sui iuris, expressão latina que indica Igrejas autônomas dentro da comunhão católica: a Igreja Latina, a Igreja Siro-Malabar e a Igreja Siro-Malancar.
Segundo a Conferência dos Bispos Católicos da Índia (CBCI), atualmente o país reúne 175 dioceses católicas. Dessas, 132 pertencem ao rito latino, 31 à Igreja Siro-Malabar e 12 à Igreja Siro-Malancar. A CBCI registra ainda 15.121 igrejas no conjunto das três tradições.
A diferença entre elas está em suas tradições litúrgicas, espirituais, disciplinares e históricas. As Igrejas Orientais Católicas estão em plena comunhão com o Papa e preservam tradições próprias que remontam aos antigos cristãos do Oriente. É uma característica particularmente importante para compreender a Índia: dentro da mesma Igreja Católica existe uma diversidade litúrgica que tem raízes muito antigas no próprio continente asiático.

Quarta-feira de cinzas em uma igreja católica em Chunakhali, Bengala Ocidental, Índia. Imagem: Zvonimir Atletic / Shutterstock.com
Entre as Igrejas católicas presentes na Índia, a Siro-Malabar é especialmente ligada à antiga tradição dos cristãos de São Tomé. Utiliza a tradição litúrgica siríaca oriental e celebra a Divina Liturgia, conhecida como Holy Qurbana. A expressão “siro” não significa que a Igreja seja árabe ou que sua origem esteja no Ocidente, mas remete à tradição cristã siríaca, uma das grandes tradições linguísticas e litúrgicas do cristianismo antigo.
Segundo Vatican News, a Siro-Malabar preserva a liturgia siríaca oriental e a tradição da Anáfora de Addai e Mari, uma das mais antigas orações eucarísticas cristãs conhecidas. A Igreja tem hoje quase cinco milhões de fiéis, segundo a publicação vaticana, e mantém sua sede histórica em Kerala. É uma das razões pelas quais uma celebração católica no Kerala pode apresentar uma aparência muito diferente da Missa celebrada em uma paróquia brasileira, embora ambas estejam inseridas na mesma comunhão da Igreja Católica.
Se a Índia fosse analisada apenas pelos números nacionais, seria fácil imaginar que os cristãos têm uma presença pequena e relativamente dispersa. O mapa religioso do país conta outra história. Kerala, no sudoeste, concentra o maior número absoluto de cristãos da Índia. De acordo com a análise do Pew Research Center baseada no Censo de 2011, havia aproximadamente 6 milhões de cristãos no estado, cerca de 22% de todos os cristãos indianos. No conjunto da população de Kerala, os cristãos representavam aproximadamente um quinto dos habitantes.
A região também é central para a história das Igrejas Siro-Malabar e Siro-Malancar. A Siro-Malabar tem suas raízes no antigo Malabar, nome histórico associado à costa sudoeste da Índia, enquanto a Siro-Malancar está igualmente profundamente ligada a Kerala. Por isso, quando se procura entender a história do cristianismo indiano, Kerala aparece repetidamente como um dos principais pontos de referência.
A presença cristã na Índia também muda completamente quando se deixa o sul e se olha para o Nordeste do país. No Censo de 2011, cristãos eram maioria em três Estados: Nagaland, Mizoram e Meghalaya. Segundo o Pew Research Center, cristãos representavam aproximadamente 75% da população de Meghalaya, enquanto permaneciam em maioria expressiva em Nagaland e Mizoram.
Esses Estados estão em uma região montanhosa do Nordeste indiano, próxima às fronteiras com China, Butão, Mianmar e Bangladesh. A composição religiosa ali é, portanto, bastante diferente daquela encontrada na maior parte do país.
Outra distinção importante é entre “cristianismo” e “catolicismo”. A população cristã da Índia inclui católicos de diferentes tradições, ortodoxos, anglicanos, protestantes e membros de outras comunidades cristãs. A história dessas Igrejas também não é igual. Algumas comunidades têm raízes muito antigas no cristianismo oriental; outras estão ligadas às missões europeias; outras surgiram ou se expandiram por meio de movimentos protestantes e evangélicos.
Uma prática encontrada em Kerala pode não existir entre cristãos de Nagaland. Uma tradição Siro-Malabar não deve ser apresentada como característica de uma comunidade protestante. E uma prática de uma Igreja Oriental não pode ser automaticamente atribuída aos católicos de rito latino.
A organização da Igreja indiana reconhece essa diversidade: a CBCI funciona como organismo nacional de coordenação entre as três Igrejas católicas sui iuris, enquanto cada uma mantém suas próprias estruturas e legislação eclesiástica.

Dia de Finados em Guwahati, Índia. Imagem: Talukdar David / Shutterstock.com
As comunidades cristãs indianas não deixaram de ser indianas ao se tornarem cristãs. Em diferentes regiões, a fé cristã foi expressa por meio das línguas locais, da arquitetura, da música, da alimentação, das relações familiares e de elementos culturais próprios.
Essa questão chegou ao centro de debates teológicos entre a Igreja na Índia e o Vaticano. Em 2019, a então Congregação para a Doutrina da Fé e a CBCI organizaram em Bangalore um simpósio sobre a fé cristã em um contexto multicultural. O encontro reuniu bispos e teólogos das três tradições católicas presentes no país.
Em 2021, a declaração que instituiu o Dia dos Cristãos Indianos também ressaltou a intenção de reunir cristãos que preservam sua identidade dentro da herança cultural indiana, independentemente de língua, costumes ou tradição eclesial. O cristianismo foi assumido e vivido por comunidades inseridas em uma sociedade com tradições próprias e uma história religiosa milenar.
Outra dimensão pouco conhecida no Brasil é o peso das instituições cristãs, especialmente católicas, na educação e nos serviços sociais indianos. A atuação da Igreja inclui escolas, universidades, hospitais e iniciativas voltadas a populações pobres e marginalizadas. Há uma contribuição histórica da Igreja Católica na alfabetização, na literatura e no desenvolvimento de línguas indianas, dentro das atividades do Dia dos Cristãos Indianos.
O arcebispo emérito Felix Machado chamou atenção para a presença da Igreja na educação e para a necessidade de reconhecer a contribuição cristã para a história do país. A educação é uma área enorme e diversificada na Índia e as instituições cristãs fazem parte de sua história e continuam desempenhando um papel relevante.
A presença cristã indiana também produziu figuras reconhecidas oficialmente pela Igreja Católica como santos. Um dos casos mais recentes é o de São Devasahayam Pillai, leigo indiano morto em 1752. Nascido Neelakanda Pillai, ele se converteu ao cristianismo, passou a ser conhecido como Devasahayam e posteriormente foi morto em razão de sua fé, segundo a tradição reconhecida no processo de canonização.
Papa Francisco o canonizou em 15 de maio de 2022, junto de outros nove beatos, na Praça de São Pedro. O Vaticano o identifica oficialmente como “Lazarus, conhecido como Devasahayam”, leigo e mártir. A canonização teve um significado especial para a Igreja indiana porque trata-se de um leigo indiano inserido na história religiosa e social do próprio país.
Sua história também lembra que a presença cristã na Índia atravessou diferentes períodos históricos e assumiu formas diversas muito depois da época atribuída à missão de São Tomé.
A história do cristianismo na Índia não cabe, portanto, na imagem de uma religião estrangeira que chegou ao país com os europeus. Há uma tradição cristã que se considera ligada ao próprio período apostólico, Igrejas orientais que preservam liturgias de origem antiga, comunidades católicas em plena comunhão com Roma e regiões onde os cristãos são maioria.
Ser uma minoria religiosa na Índia também significa viver em um contexto de tensões religiosas. Relatórios recentes da Comissão dos Estados Unidos sobre Liberdade Religiosa Internacional (USCIRF) registram ataques, ameaças e outras formas de pressão contra comunidades cristãs em diferentes partes do país, além do impacto de leis estaduais que restringem ou regulamentam conversões religiosas. Em 2026, a comissão voltou a classificar as condições de liberdade religiosa na Índia como deterioradas.
Esses relatórios são de uma instituição do governo dos Estados Unidos e, portanto, devem ser entendidos como uma fonte específica de monitoramento internacional, não como uma descrição exaustiva de toda a realidade indiana. Ainda assim, eles documentam um aspecto contemporâneo que não pode ser ignorado quando se pretende compreender a experiência dos cristãos no país.
O cristianismo indiano é, ao mesmo tempo, antigo e contemporâneo; minoritário no conjunto da população, mas majoritário em alguns Estados; oriental em algumas de suas tradições e plenamente católico em comunhão com Roma em outras; profundamente marcado pela história local e, ao mesmo tempo, parte de uma Igreja espalhada pelo mundo.
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