O que era o maná? O alimento milagroso da Bíblia que voltou a ser cobiçado na alta gastronomia

O que era o maná? O alimento milagroso da Bíblia que voltou a ser cobiçado na alta gastronomia

“Pão do céu”, “cereal do céu”, “alimento dos anjos”. O maná recebeu tantos nomes pelos séculos quanto mistérios que guarda até hoje. A expressão “maná que veio do céu” é muito conhecida, ainda que nem todos saibam o que era esse alimento, como chegava, por que desaparecia com o calor do sol, e por que, em pleno século XXI, chefs de cozinha disputam acesso a uma substância raríssima que pode ser a sua versão real.

O que diz a Bíblia

O maná aparece pela primeira vez na Escritura em Êxodo 16, quando os israelitas, recém-saídos da escravidão no Egito, atravessavam o deserto do Sinai. Sem comida e sem perspectiva de cultivo no árido território, o povo reclamou a Moisés e Arão. A resposta de Deus foi imediata:

“Agora eu vou fazer chover do céu pão para vocês. E o povo deverá sair, e cada um deverá juntar uma porção que dê para um dia. Assim eu os porei à prova para saber se eles vão obedecer às minhas ordens” (Êxodo 16,4).

Na manhã seguinte, quando o orvalho secou, a superfície do deserto estava coberta por uma substância que os israelitas nunca haviam visto. A Bíblia descreve o maná como pequeno e arredondado, de coloração esbranquiçada, semelhante a uma semente de coentro e ao bdélio, uma resina aromática. Seu sabor era comparado a bolos de mel (cf. Êxodo 16,31). Os israelitas o moíam em moinhos ou pilões, cozinhavam ou assavam e preparavam bolos com ele.

De acordo com as regras, só era permitido coletar a quantidade necessária para um dia e quem guardava para o dia seguinte encontrava o maná apodrecido e cheio de bichos. A exceção era a sexta-feira, pois nesse dia, deviam coletar o dobro, pois no sábado (o Shabat) o maná não aparecia. Antes que o sol esquentasse, era preciso ter recolhido tudo, porque o calor o derretia. A provisão durou quarenta anos, até que os israelitas chegaram à Terra de Canaã e tiveram acesso a outros meios de sustento (cf. Josué 5,12).

Uma medida de maná foi guardada por Arão como memorial e a Epístola aos Hebreus registra que um pote de ouro com maná foi colocado dentro da Arca da Aliança (cf. Hebreus 9,4).

O que o nome significa

A origem da palavra “maná” já é, ela mesma, uma pista sobre o mistério. Quando os israelitas viram aquela substância pela primeira vez, perguntaram uns aos outros: “Man hu?”, que em hebraico significa “O que é isso?”. A expressão man, que significa “o que é”, passou a nomear o alimento. Maná, portanto, quer dizer literalmente “o quê”, algo que lembra ninguém sabia ao certo do que se tratava.

O que a ciência indica

Durante séculos, a natureza do maná permaneceu apenas no campo da fé e da teologia. Em 1927, o zoólogo Friedrich Simon Bodenheimer, da Universidade Hebraica de Jerusalém, viajou à Península do Sinai em busca de uma explicação e encontrou gotículas de uma substância doce, segregadas por insetos da família dos coccídeos, que vivem nas tamareiras e outras plantas da região. Esses pequenos insetos sugam a seiva das plantas, rica em hidratos de carbono mas pobre em nitrogênio. O excesso de seiva é excretado em forma de gotículas doces que, com a evaporação das baixas temperaturas noturnas do deserto, se solidificam. Com o calor do sol, voltam a derreter ou são carregadas pelas formigas. Os árabes ainda hoje chamam essa substância de “man” pode ser encontrada como iguaria nas ruas de Bagdá.

Não há qualquer problema se essa hipótese estiver correta: a provisão do maná não deixa de ser um milagre porque existe uma explicação razoável para o evento. Na verdade, se for este o caso, o milagre não está exatamente na natureza do maná, mas no controle da quantidade realizado por Deus de prover o suficiente para alimentar um povo inteiro, durante quarenta anos, no meio do deserto.

O maná na alta gastronomia

O que a Bíblia descreve como alimento do deserto voltou a chamar atenção por um caminho inesperado, o da alta gastronomia. A substância que mais se aproxima do maná bíblico é o que hoje se conhece como “maná do deserto” ou “maná de tamarisco“, uma excreção natural, rara, coletada à mão em regiões do Oriente Médio e da Ásia Central, cuja composição é rica em açúcares naturais, com sabor adocicado, textura única e uma raridade que a transforma em ingrediente disputado por chefs que buscam ingredientes com história e profundidade.

A substância é perecível, disponível apenas em pequenas quantidades e estritamente sazonal, características que a Bíblia já descrevia com precisão. Em países como o Irã, o Afeganistão e o Curdistão, o maná é consumido há séculos e segue sendo vendido em mercados locais. O crescente interesse da gastronomia contemporânea por ingredientes ancestrais, com identidade cultural e rastreabilidade, trouxe o maná de volta à mesa, mas desta vez, não por necessidade, mas por escolha.

Prefiguração da Eucaristia

Para a Igreja, o maná é uma prefiguração: um sinal que aponta para algo maior que viria séculos depois. Em João 6, Jesus usa o episódio do maná para anunciar a Eucaristia. Quando a multidão lhe pede um sinal como o que Moisés havia feito no deserto, Jesus responde:

“Em verdade, em verdade vos digo: não foi Moisés quem vos deu o pão do céu; é meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu. Pois o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo” (João 6,32-33).

E logo em seguida:

“Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim nunca terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede” (João 6,35).

A Eucaristia é o verdadeiro cumprimento daquilo que o maná prefigurava: enquanto o maná sustentava o corpo no deserto e aqueles que o comeram morreram, o pão que Jesus oferece sustenta para a vida eterna (cf. CIC § 1334). A Arca da Aliança, que guardava um pote de ouro com maná, prefigurava o sacrário, onde Cristo, pão vivo, permanece presente na Igreja. O Livro do Apocalipse ainda guarda uma promessa escatológica: “Ao vencedor darei do maná escondido” (Apocalipse 2,17).

O alimento que não se guarda para amanhã

O maná não podia ser guardado. Quem tentava estocar para o dia seguinte encontrava apodrecimento. A provisão de Deus era diária e exigia confiança renovada todas as manhãs. É o mesmo espírito da oração que Jesus ensinou:

“O pão nosso de cada dia nos dai hoje” (Mateus 6,11).

Não o pão da semana, nem o pão do mês. O pão de hoje, dependência cotidiana, confiança cotidiana, encontro cotidiano com Deus. O maná não era uma iguaria rara reservada para momentos especiais, mas o alimento de caminhada, sustento de quem estava a caminho. 

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