Quando alguém próximo recebe um diagnóstico de câncer, a primeira reação de quem está ao redor costuma ser a de buscar palavras certas para consolar. O problema é que, na tentativa de ajudar, algumas frases ditas com boa intenção podem causar mais desconforto do que alívio. A psicóloga Julita Sena, que tem capacitação em luto e experiência em acompanhamento de pacientes oncológicos e seus familiares, aponta o que evitar e o que realmente faz diferença nesse momento.

O primeiro alerta da psicóloga é sobre as promessas de que “vai dar tudo certo” ou de que “tudo vai se resolver.”
“São coisas que a gente tem um certo cuidado até para poder dar espaço de escuta, de acolhimento ao que de fato aquela pessoa tiver atravessando”, explica Julita.
Isso porque cada paciente vive o tratamento de forma diferente. Há quem atravesse o processo com otimismo e esperança, e há quem passe por momentos de muita dificuldade. Fazer uma promessa genérica sobre o desfecho pode ignorar completamente o que aquela pessoa está sentindo no momento.
Outro erro comum é contar histórias de outras pessoas que passaram por situações semelhantes e saíram bem. “Fulano foi de tal forma, deu certo, aquela pessoa prosperou”… esse tipo de comparativo, segundo Julita, “pode provocar um mal-estar muito grande quando não é possível para a pessoa em questão.” O mesmo vale para comparações dentro do próprio tratamento da pessoa. Lembrar que ela já passou por uma quimioterapia ou por em uma cirurgia difícil pode parecer encorajador, mas costuma gerar desgaste quando ela está diante de em uma nova etapa.
Um ponto que a psicóloga destaca com atenção especial é a relação entre o tratamento e a espiritualidade. Para muitos pacientes, a fé e a crença religiosa são elementos centrais na travessia do câncer. Comentários que, mesmo sem intenção, coloquem em dúvida essa dimensão podem tirar da pessoa um de seus principais sustentáculos. “A fé, a crença espiritual e religiosa é um elemento importante para essa travessia”, afirma Julita.
Julita também alerta para discursos que criam expectativas incompatíveis com a situação real do paciente. Momentos de distração e fortalecimento são necessários, mas construir narrativas que afastem a pessoa da sua realidade pode dificultar o processo de enfrentamento. O cuidado é preservar o espaço para que o paciente se expresse sobre o que está vivendo de verdade, sem precisar sustentar em uma fachada de positividade que não corresponde ao que sente.
Tão importante quanto saber o que não dizer é entender o que a pessoa precisa de fato naquele momento. Julita lembra que o suporte pode também valer mais do que as palavras.
“Muitas vezes uma assistência prática é o que essa pessoa está precisando. Procure saber se ela está precisando de alguém que acompanhe em uma consulta, de em uma organização prática das coisas de casa, da vida do dia a dia, de em uma orientação burocrática sobre questões de documentação, do trabalho”, explica a psicóloga.
Antes de chegar com palavras de conforto prontas, vale perguntar diretamente o que aquela pessoa precisa e então agir de acordo com a resposta. A presença, como explica Julita Sena, é em si mesma uma forma de suporte.
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