Enchentes, queimadas, ondas de calor, alertas da Defesa Civil no celular. O noticiário climático virou presença cotidiana na vida dos brasileiros e, com ele, veio algo que os pesquisadores chamam de ecoansiedade, também conhecida como ansiedade climática, uma resposta psicológica real a uma ameaça real.
Uma pesquisa nacional realizada em 2025 pelo Instituto Cactus com mais de 10 mil brasileiros mostrou que 54% se preocupam diária ou semanalmente com a crise climática, e que quase 42% acreditam que as mudanças climáticas já afetaram sua saúde mental. Entre os sintomas relatados estão nervosismo, insônia, medo e dificuldade de se concentrar no trabalho ou nos relacionamentos.
A ecoansiedade é a angústia causada pela preocupação com as consequências das alterações climáticas. O Conselho Federal de Psicologia (CFP) a reconhece como um fenômeno psicológico legítimo e a associa a sintomas como estresse, sensação de impotência, pânico, depressão e alterações no sono e no apetite.
A psicóloga Marly Terezinha Perrelli, conselheira e coordenadora da Comissão de Psicologia de Crises, Emergências e Desastres do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR), participou do programa A Vida Em Foco, com Carol Tormena, da TV Evangelizar. Ela explica que a ansiedade climática funciona como qualquer outro tipo de ansiedade:
“É um fenômeno psicológico que todos nós temos em graus diferentes. Pode incapacitar do teu dia a dia, da tua vida cotidiana”, afirma.
Os sintomas físicos e emocionais incluem insônia, falta ou excesso de apetite, medo intenso de sair de casa, sudorese e dor de cabeça sempre associados ao tema climático. Quando a ansiedade chega a esse ponto, pode evoluir para um quadro depressivo.
Há dois tipos de vítimas da crise climática, segundo a psicóloga: as diretas, que já passaram por situações de emergência, e as indiretas, que acompanham o sofrimento alheio pela mídia e constroem um estado de alerta a partir disso. As duas vias afetam.
O fenômeno é especialmente intenso entre jovens. Um estudo publicado na revista The Lancet Planetary Health em 2021 ouviu 10 mil pessoas entre 16 e 25 anos em 10 países e constatou que 84% estavam ao menos moderadamente preocupadas com o clima, e que mais de 45% disseram que essa preocupação afetava seu funcionamento diário. No Brasil, a pesquisa do Instituto Cactus confirmou o mesmo padrão: jovens e mulheres são os grupos mais afetados. A psicóloga do CRP-PR explica a razão:
“São os jovens porque eles vão pensar que mundo nós vamos deixar para eles, que mundo que eles vão ter futuramente.”
Uma herança de incerteza sobre a água, o clima e as condições básicas de vida pesa de forma diferente sobre quem ainda tem a maior parte da própria vida pela frente.
A preocupação com o clima não é, em si, um problema. O CFP reconhece que essa preocupação pode ser uma resposta saudável e até protetora diante de uma ameaça concreta. O problema surge quando se torna paralisante, quando impede a pessoa de sair de casa, de dormir, de funcionar.
Marly Perrelli alerta para o risco de superexposição às notícias: “Ela tem que parar de se expor tanto à mídia. Assistir o dia todo e fontes não oficiais” alimenta o estado de alerta sem oferecer saída. A recomendação é acompanhar fontes oficiais, como a Defesa Civil, que orienta o que fazer em situações de emergência, sem se submergir no fluxo constante de informações.
Crianças merecem atenção especial, pois captam o estado emocional dos adultos ao redor e quando os adultos estão em pânico, entram em pânico também.
“Nós precisamos de um adulto que acalme, que silencie esses pensamentos, que diga que nós temos esse alerta, são estratégias protetivas, que nós vamos conseguir saber o que fazer”, orienta a psicóloga.

A espiritualidade aparece na literatura psicológica como um fator de proteção diante da ansiedade climática. Marly Perrelli cita explicitamente: entre os fatores de resiliência, está “a espiritualidade, porque assim você também consegue ter um lugar em você que você possa recorrer a situações que traz calma.”
A Laudato Si’, encíclica do Papa Francisco publicada em 2015, parte de uma convicção que organiza tudo o mais: “guardar significa proteger, cuidar, preservar, velar” e essa tarefa pertence ao ser humano como vocação, não como fardo (§ 67). O cuidado com a criação é missão.
Ao mesmo tempo, a Laudato Si’ traz uma palavra que a ansiedade tende a apagar: esperança. “A esperança convida-nos a reconhecer que sempre há uma saída, sempre podemos mudar de rumo” (§ 61). A Laudate Deum (2023) aprofundou essa reflexão ao reconhecer a urgência da crise climática sem abrir mão da perspectiva cristã sobre o tempo e a responsabilidade humana.
A psicóloga Marly Perrelli recomenda o que ela chama de autocuidado como premissa: fazer atividades que a pessoa gosta, conversar com pessoas que não estejam falando do mesmo assunto o tempo todo, e manter vínculos afetivos seguros.
“Você conseguir ser amparado por alguém, que você estabeleça uma segurança, um laço afetivo. Isso te ajuda a enfrentar a ansiedade climática”, resume.
Do ponto de vista espiritual, o amparar é também uma palavra do Papa Francisco, citada pela própria psicóloga no programa.
“O Papa falou numa palavra que nós usamos na psicologia das emergências e desastre, importantíssima, que é amparar, amparar as pessoas, que a gente possa ter esse olhar empático de compaixão. Compaixão não é pena nem dó. ”
Para quem carrega um peso grande de preocupação com o futuro do planeta, o caminho que a fé e a psicologia apontam é não ficar sozinho com esse peso. Ter a quem recorrer, seja um psicólogo, seja uma comunidade, seja a oração, faz diferença mensurável no modo como a pessoa consegue atravessar a angústia sem ser engolida por ela.
Deixe seu comentário sobre o que você achou do conteúdo.
Assine nossa newsletter, receba nossos conteúdos e fique por dentro
de todas as novidades.