Em um fim de tarde de 1872, em uma estrada de terra que cortava a planície de Pompeia, um homem parou. Ele tinha 31 anos e um passado que o perseguia como uma sombra, pois havia passado anos em uma mau caminho e uma “consagração” como sacerdote satanista em Nápoles, a marca de quem havia servido ao que a Igreja chama de adversário. Bartolo Longo estava convicto de que havia chegado ao limite e o que o deteve naquela estrada foram as palavras de um padre dominicano que lhe havia dito, meses antes, que quem propaga o Rosário é salvo.
Em 19 de outubro de 2025, Papa Leão XIV canonizou Bartolo Longo na Praça de São Pedro, diante de cerca de 55 mil fiéis, declarando-o padroeiro da conversão dos pecadores e modelo de caridade ativa. Na homilia, o Papa o chamou de “benfeitor da humanidade com o coração aceso de devoção” e afirmou que a vida de Longo representa “a vitória da fé sobre as trevas.”
Bartolo Longo nasceu em 10 de fevereiro de 1841 em Latiano, no sul da Itália, próximo a Brindisi, em uma família católica praticante. A fé da infância acompanhou-o até a Universidade de Nápoles, onde foi estudar Direito, mas a cidade que o recebeu na década de 1860 era uma Nápoles convulsionada: a unificação italiana havia acabado de dissolver o Reino das Duas Sicílias e o ambiente universitário respirava anticlericalismo. Para muitos estudantes daquela geração, afastar-se da Igreja era um gesto quase político.
Atraído pelo espiritismo em busca de uma experiência religiosa que substituísse a fé que havia abandonado, ele começou a frequentar sessões mediúnicas convencido de que poderia assim contatar seu pai já morto e dessa imersão passou à iniciação em grupos que praticavam ritos de inversão satânica, até ser “consagrado” sacerdote por uma dessas congregações. Seus amigos, preocupados com o seu estado, temiam que ele estivesse possuído, pois sofria de pesadelos recorrentes, alucinações e uma depressão persistente.

Imagem de São Bartolo Longo no Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Pompeia. Foto: DyziO / Shutterstock.com
A saída desse labirinto veio por dois caminhos. Um padre dominicano, Alberto Radente, acolheu Bartolo e o acompanhou de volta à fé católica, enquanto ele também conhecia Caterina Volpicelli, uma nobre napolitana de vida consagrada que trabalhava pela evangelização dos afastados da Igreja. Bartolo tornou-se Terciário Dominicano em 1871, ligando-se definitivamente ao espírito de oração e apostolado que marcaria o restante da sua vida.
Foi Caterina quem pediu que ele viajasse até Pompeia, em 1872, para dar catequese a camponeses que mal conheciam o Pai-Nosso. Bartolo foi de má vontade e encontrou uma paróquia pobre, sem recursos, com uma imagem de Nossa Senhora do Rosário em estado de deterioração que havia sido trazida em uma carroça de entregador de lixo. Era ali, naquele lugar sem nada, que ele resolveu ficar, em um gesto que, à primeira vista, se confundia com resignação, mas que a história leria de outra forma.
O que Bartolo Longo construiu em Pompeia nas décadas seguintes é difícil de resumir sem cair na simples enumeração. A imagem deteriorada foi restaurada e instalada em uma nova igrejinha em 1875; no ano seguinte, lançou-se a pedra fundamental do que se tornaria o Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Pompeia, elevado a Santuário Pontifício em 1891 e à dignidade de basílica em 1939.
Ao redor do santuário, ergueu escolas primárias gratuitas, orfanatos, uma casa para filhos e filhas de presos, uma gráfica, uma farmácia e habitações populares, e em 1897 fundou as Filhas do Santo Rosário de Pompeia, congregação religiosa dedicada à educação e ao cuidado dos mais vulneráveis. A sua visão era a de que o Rosário tinha de se tornar carne, ação concreta na vida de quem mais precisava. O santuário de Pompeia não seria um lugar de refúgio do mundo, mas de envio para o mundo.
Em 1906 e 1909, Bartolo transferiu para a Santa Sé todas as obras que havia construído, renunciando voluntariamente à propriedade de tudo, como quem formalizasse o que já sabia desde o início: nada havia sido feito para ele.

Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Pompeia. Foto: wiktoriaex / Shutterstock.com
A história de Bartolo Longo inclui um episódio pouco usual. Por volta de 1885, a pedido do próprio Papa Leão XIII, ele se casou com a Condessa Mariana de Fusco, viúva rica que havia sido sua patrona desde os primeiros anos das obras de Pompeia. O casamento foi casto desde o início e teve o objetivo prático de encerrar os boatos que circulavam sobre a convivência dos dois; Mariana faleceu em 1924, dois anos antes de Bartolo.
Em 1902 e 1903, Bartolo Longo foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz, com petições que somavam mais de quatro milhões de assinaturas de pessoas ao redor do mundo, reconhecendo-o como promotor da paz por meio da oração e das obras sociais. Bartolo morreu em 5 de outubro de 1926 em Pompeia, aos 85 anos, e foi beatificado pelo Papa João Paulo II em 26 de outubro de 1980. O milagre reconhecido para a sua canonização foi a cura de Carmen Rocco Câmera, em 1943, de uma doença gastrointestinal considerada terminal pelos médicos da época.
Ao proclamar Bartolo Longo santo, o Papa Leão XIV não precisou buscar metáforas distantes. A vida dele era, ela mesma, a metáfora: um homem que havia estado no lado oposto e que, pela graça, se tornou um dos maiores construtores do Reino no século XX. “Benfeitores da humanidade com seus corações acesos de devoção”, disse o papa na homilia de canonização ao citar Bartolo Longo entre os novos santos, acrescentando que a sua história representa “a vitória da fé sobre as trevas”.
O Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Pompeia recebe hoje mais de quatro milhões de peregrinos por ano, e as obras sociais fundadas por Bartolo Longo continuam ativas. A escola para filhos de detentos, que se tornou referência em educação e reintegração social na Itália, existe até hoje, assim como as Filhas do Santo Rosário de Pompeia, presentes em vários países. O apostolado do Rosário que ele iniciou naquela planície desolada em 1872 transformou Pompeia em um dos maiores centros mundiais de devoção mariana e o homem que pensou em se suicidar naquela estrada de terra é hoje santo reconhecido pela Igreja universal. São Bartolo Longo é celebrado em 5 de outubro.
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