Acolher antes de aconselhar: o que a Bíblia e os especialistas ensinam sobre estar com quem sofre

Acolher antes de aconselhar: o que a Bíblia e os especialistas ensinam sobre estar com quem sofre

Quando alguém chega carregando um peso que não consegue mais carregar sozinho, o primeiro impulso de quem está ao lado costuma ser o de ajudar com palavras. Dar uma explicação, sugerir uma saída, oferecer um conselho, citar um versículo. A intenção pode ser a melhor possível, mas às vezes esse impulso impede o encontro verdadeiro com quem está sofrendo.

A psicóloga Paula Leverone, em entrevista publicada pelo IDe+, explica que em momento de sofrimento intenso e riscos, muitas vezes o que essa pessoa precisa, antes de qualquer resposta, é de alguém que ouça, que tolere estar presente diante da dor sem precisar resolvê-la imediatamente.

A primeira atitude é o silêncio

A Irmã Maria Eugênia, que atua há anos em missão e em ambiente hospitalar, descreveu o que o sofrimento pede de quem está ao lado.

“Sem margem de dúvidas, a primeira atitude é a presença na forma de um silêncio e uma escuta qualificada, que podemos chamar de acolhimento.”

A escuta qualificada é o que os profissionais chamam de escuta ativa, que já é uma forma de cuidado. A Bíblia, inclusive, está cheia de cenas em que Jesus poderia ter dado um conselho imediato e não deu. Parou, olhou, tocou, perguntou. Quando encontrou o paralítico de Betesda, doente há 38 anos e esquecido por todos, a primeira coisa que Jesus fez foi perguntar: “Queres ficar curado?” (João 5,6). Uma pergunta que reconhece o desejo da pessoa antes de qualquer resposta.

Quando a mulher que sofria de hemorragia há doze anos O tocou, escondida na multidão, Jesus parou, perguntou quem O havia tocado e, diante de todos, a chamou de “filha”, palavra que, antes de qualquer cura, a reintegrava à comunidade de onde havia sido excluída (cf. Marcos 5,25-34).

Em João 11, diante do túmulo de Lázaro, Jesus não pregou sobre a ressurreição antes de olhar para a dor de Maria e Marta. O Evangelho registra dois versículos de silêncio: “Jesus, vendo-a chorar… perturbou-se em espírito e comoveu-se” (João 11,33). E então o versículo mais curto de toda a Bíblia: “Jesus chorou” (João 11,35). 

Como o IDe+ já mostrou na matéria “Doenças silenciosas da Bíblia e o que isso nos diz sobre acolher o próximo“, Jesus atravessou repetidamente a fronteira do preconceito para estar com os que a sociedade preferia ignorar. Tocou o intocável, parou para a que era invisível, perguntou ao esquecido o que queria. Essa é a gramática do acolhimento cristão.

Acolher não é concordar, nem resolver

Uma confusão frequente é pensar que acolher significa aprovar o sofrimento, validar uma ideia errada ou deixar de dizer o que é necessário. Acolher é diferente de concordar e significa reconhecer que a dor é real antes de qualquer outra conversa. É criar um espaço onde a pessoa se sinta segura o suficiente para continuar falando, porque sabe que não será julgada no primeiro instante.

A Pastoral da Escuta da Igreja Católica oferece “um espaço seguro para que as pessoas possam desabafar e refletir sobre suas questões à luz da fé cristã”, sem substituir o trabalho de psicólogos e psiquiatras, mas com uma escuta qualificada que o ambiente pastoral pode proporcionar. Quando necessário, esse serviço encaminha os atendidos para profissionais de saúde, pois acolher também é saber os limites do próprio papel e reconhecer quando a pessoa precisa de ajuda especializada.

Como acolher

Estar presente não exige palavras certas, mas disposição para ficar. Alguns gestos marcam a diferença entre um acolhimento genuíno e uma resposta rápida que fecha a conversa antes do tempo. Perguntar “como você está de verdade?” e esperar a resposta com paciência, sem preencher o silêncio, ouvir sem interromper e sem preparar mentalmente a próxima frase enquanto a pessoa ainda fala, resistir ao impulso de minimizar a dor com frases como “poderia ser pior” ou “Deus sabe o que faz” antes de simplesmente reconhecer que aquilo dói.

Mais que tudo isso, é essencial não exigir que a pessoa seja forte, que confie mais, que reze mais. Apenas esteja ao lado. Padre Jorge Fortunato, em coluna publicada pelo IDe+, escreveu que acolher no Setembro Amarelo é “dizer, com a presença e o afeto: ‘Sua dor importa, sua vida é preciosa e você não precisa carregar esse peso sozinho'”.

Se você ou alguém que você conhece está precisando de apoio, procure ajuda.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) atende 24 horas por dia, todos os dias, de forma gratuita e sigilosa pelo telefone 188 ou pelo site cvv.org.br. A Pastoral da Escuta está disponível em paróquias de todo o Brasil, com atendimento gratuito por agentes pastorais capacitados.

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