Bola na rede, troféu erguido e um terço nas mãos. Foi assim que Giovani Machado Tozo, lateral de 17 anos, celebrou o título do Paraná na Taça das Favelas, em janeiro de 2024. No momento da comemoração, enquanto os companheiros exultavam ao redor, ele elevou os braços ao Céu com o Terço de Jesus das Santas Chagas, presente de sua avó, companheiro de treinos, jogos e sonhos. A cena foi transmitida pela TV, circulou na imprensa e virou símbolo de uma fé declarada, visível, carregada no corpo como quem não tem vergonha de pertencer.
“Sem fé não somos nada. Então, eu tive fé com ele e, graças a Deus, minhas preces foram ouvidas e realizadas”, disse Giovani.
Pelo Brasil, uma geração de jovens católicos tem adotado o hábito de carregar o terço para todos os lugares, no passador do cinto, no pescoço, no bolso, na mochila, na mão. Para alguns, é sinal de devoção silenciosa e, para outros, é declaração pública de fé. Para todos, é memória constante de que há uma presença que acompanha e de que a oração não precisa esperar um horário marcado.
Esse gesto tem ganhado formas cada vez mais criativas e cotidianas entre os jovens. A influenciadora adolescente Lara, do perfil @catequizandonolar no Instagram, ensina em seus vídeos maneiras de manter o terço sempre por perto, como usá-lo no pulso, à maneira de uma pulseira, sem perder nem a devoção nem a naturalidade de quem quer carregar a fé.

Antes de entender por que se carrega o terço, vale entender o que ele é. Padre Reginaldo Manzotti, fundador da Associação Evangelizar é Preciso (AEP), explica a origem dessa devoção:
“A palavra Rosário vem do latim rosarium, que significa ‘coroa de rosas’. Na Idade Média, quando o feudalismo era o sistema social vigente, os vassalos ofereciam aos seus senhores uma coroa de flores em sinal de submissão e fidelidade. Dessa forma, os cristãos viram no rosário coroa de rosas perfumadas de oração, a oferenda ideal para homenagear a Mãe de Jesus, Nossa Senhora.”
Um Irmão Leigo da Ordem dos Dominicanos, que não sabia ler nem escrever, não podia acompanhar os salmos como era costume nos conventos da época. Então, quando terminava seus trabalhos pela noite, ia à capela, ficava diante da imagem da Virgem Maria e recitava 150 Ave-Marias, o número dos salmos, antes de se recolher à cela. Pela manhã, levantava antes de todos e voltava ao local para repetir o gesto. O Irmão Superior, ao chegar para as orações da manhã com os demais monges, percebia todos os dias um delicioso perfume de rosas recém-cortadas. Curioso, mandou investigar quem adornava o Altar com tantas flores. A resposta foi que ninguém o fazia, e não se notavam flores faltando nos roseiros do jardim. Cada Ave-Maria do irmão iliterado chegava à Virgem como uma rosa.
Há quem estranha a estrutura do terço, com tantas repetições, Ave-Marias, Pai-Nossos e se pergunta se não seria aquilo que Jesus condenou em Mateus 6,7. Padre Reginaldo responde:
“Muitos acham a oração do terço repetitiva e, portanto, condenada por Jesus. Na verdade, o problema não é a repetição e sim o discurso vão e a arrogância na oração. A oração do terço, o Santo Rosário, é uma oração repetitiva, mas quando rezada de coração, é uma meditação dos mistérios salvíficos. Em cada mistério que contemplamos, colocamos no horizonte da nossa oração uma lembrança da economia, do processo da salvação, algo importante da vida de Jesus. Ao contrário do que se pensa, a oração do terço é cristológica. Rezamos com Maria meditando os mistérios da redenção operada por Jesus.”
O Santo Rosário, em sua forma completa, é composto por 20 dezenas de Ave-Marias (200 no total), com um Pai-Nosso a cada dezena, finalizando com três Ave-Marias e uma Salve-Rainha. Esses mistérios estão organizados em quatro grupos que percorrem a vida de Jesus e de Maria: os Mistérios Gozosos, da Anunciação ao encontro do Menino Jesus no Templo; os Mistérios Dolorosos, da Agonia no Horto até a Crucificação; os Mistérios Gloriosos, da Ressurreição até a Coroação de Nossa Senhora; e os Mistérios Luminosos, do Batismo de Jesus até a Instituição da Eucaristia, acrescentados por São João Paulo II.
Sobre a oração da Ave-Maria, o Padre oferece uma explicação que revela a densidade de cada palavra. “Ave” é o termo usado para saudar imperadores, “Ave, César”. “Cheia de graça” vem do grego Kecharitoménê, expressão que São Jerônimo traduziu para o latim como gratia plena, sugerindo “plenamente agraciada” ou “repleta de graça”. “O Senhor é Convosco” revela a presença de Deus na vida de Maria. “Bendita sois Vós entre as mulheres” são as palavras de Isabel, inspirada pelo Espírito Santo ao receber a visita de Maria. “Bendito é o fruto do Vosso ventre, Jesus” é o reconhecimento da maternidade divina. A segunda parte da oração, invocação da Igreja, cuja composição é atribuída a São Bernardo, “ressalta a grandeza de Maria, nossa miséria humana, e o poder da intercessão da Mãe de Deus em nossa vida e na hora da morte”, conclui Padre Reginaldo, que recomenda:
“Reze o terço, pois grandes são os frutos desta oração! Acredito que ele é uma ‘cordinha’ que Deus mandou para subirmos ao Céu.”
Cosmo Alves sabe o que é depender da oração dos outros quando as próprias forças faltam. Ex-coordenador da Pastoral da Juventude da Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Felipe Guerra, e integrante do Terço dos Jovens, ele passou por uma das situações mais extremas que alguém pode enfrentar. Em 2015, sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) que o levou a 45 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Não conseguia falar nem andar.
“Foram os 45 dias mais intensos da minha vida. Lá, apesar de não conseguir falar nem andar, o que depois tive que aprender novamente, ouvia meus pais relatando que todos os dias meus amigos estavam fazendo corrente de oração por mim, rezando o Terço das Batalhas. Era incrível como mesmo em meio ao caos eu conseguia sentir a força que eles emanavam pelas suas orações”, relata Cosmo.
Ele se recuperou e atribui à intercessão comunitária uma parte essencial desse caminho. Reunido todas as segundas-feiras com outros jovens na Igreja para rezar o terço, ele observa o mesmo movimento em outros.
“Vejo os jovens chegando carregados de angústias e dores saírem de lá mais leves, porque em cada mistério colocam um pouco do peso que estão carregando. E eu acho que é esse mesmo o sentido do terço, rezar junto. É pedir perdão ao Pai, ao mesmo tempo em que você pede que Ele também perdoe o seu irmão.”
Rezar o terço e levá-lo por onde for é fortalecer a devoção, confiança e amor à Virgem Maria e, por meio d’Ela, ao próprio Cristo, cujos mistérios o terço medita do começo ao fim. Como disse o Padre Reginaldo Manzotti, é uma cordinha que Deus mandou para subirmos ao Céu. Vale carregá-la sempre.
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