De veterinária a freira do beatbox: como Irmã Marizele encontrou sua vocação e por que agosto é o mês de fazer a mesma pergunta

De veterinária a freira do beatbox: como Irmã Marizele encontrou sua vocação e por que agosto é o mês de fazer a mesma pergunta

Agosto é o mês dedicado às vocações no calendário pastoral da Igreja Católica no Brasil. Em 2026, a Comissão para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) propõe o tema “Comunidades Vocacionais: Encontro, Testemunho e Missão” e o lema retirado dos Atos dos Apóstolos: “Perseverantes e bem unidos, partiam o pão pelas casas” (Atos dos Apóstolos 2,46). Ao longo do mês, a Igreja dedica cada semana à oração por uma vocação específica: ministros ordenados (bispos, padres e diáconos), vida matrimonial, vida religiosa e consagrada (institutos religiosos, institutos seculares, sociedades de vida apostólica, ordem das virgens e vida eremítica) e vocação leiga.

Vocação religiosa

Em meio ao mês das vocações, a história de Irmã Marizele Isabel Cassiano Rego inspira muitas jovens. Natural de Assis Chateaubriand, no Paraná, se formou em Medicina Veterinária em 2001 e tudo indicava que a ciência seria seu caminho. Mas Deus tinha outros planos, e ela foi encontrá-los ajoelhada diante de um sacrário, em uma noite em que o desespero bateu à porta.

Em 2004, Irmã Marizele ingressou na Congregação Copiosa Redenção, em Ponta Grossa, nos Campos Gerais do Paraná. Hoje, além de promotora vocacional e missionária, é conhecida como “a freira do beatbox“,  depois que um vídeo em que ela e Irmã Marisa cantam, dançam e fazem beatbox ao vivo na televisão viralizou, chegou a jornais de sete países e atraiu até o The New York Times à casa da comunidade para entender o que havia acontecido ali.

Irmãs Marizele e Marisa, da Copiosa Redenção

Mas antes do viral, do beatbox e do hábito, houve uma promessa feita a Deus diante de um sacrário por uma jovem veterinária que não acreditava que a ciência pudesse falhar. A seguir, ela conta essa história.

IDe+ | A senhora era médica veterinária quando decidiu se entregar à vida consagrada após uma promessa. Como esse encontro com Deus aconteceu?

Iniciei a faculdade em 1997, tinha 18 anos. No segundo para o terceiro ano, minha mãe começou a adoecer. Foi a vários médicos até que um oncologista de Maringá deu o diagnóstico: osteossarcoma, um câncer ósseo raro, com quatro meses de vida se amputasse o fêmur. Esse médico falou com meu pai e no final disse: ‘se vocês acreditam em Deus, só Ele pode curar sua esposa’.

Minha caminhada cristã católica nessa época era fria. Sempre fui católica, batizada, fiz primeira eucaristia e Crisma, mas faltava ter a experiência pessoal com Deus. Quando meu pai voltou da consulta, reuniu as filhas e, aos prantos, contou o que o médico havia dito. Eu saí daquela reunião indignada, como a ciência ainda não tinha resposta para isso? Para mim, a ciência responderia tudo. No caminho para casa, passei na Paróquia São Francisco, onde eu participava. Entrei pela primeira vez sem ser em momento de missa ou grupo de oração e fui direto ao sacrário. Me ajoelhei, olhei para Jesus e falei: ‘O Senhor me conhece, mas eu não te conheço. Cura minha mãe e serei sua.’ Eu não sabia exatamente o que estava falando. Foi muito espontâneo. Pedi que mudasse todas aquelas células cancerígenas. A partir daquele dia, era como se Jesus estivesse do meu lado. Eu poderia senti-Lo. Foi muito forte, uma efusão do Espírito Santo foi acontecendo, aquecendo e aumentando a minha fé. Minha mãe foi a São Paulo, onde havia um especialista. Quando o médico a atendeu, pediu uma bateria de exames e, para sua surpresa e nossa, as células haviam sido modificadas: ela não tinha mais câncer. Deus ouviu meu pedido, comecei a conhecer um Deus capaz de ouvir e estar perto de mim. Esse foi o despertar da minha caminhada de fé. O primeiro salmo que cantei dizia: ‘Ó Senhor, cantarei eternamente o vosso amor!’ Foi uma profecia.

IDe+ | E como era a sua vida antes de se tornar religiosa? Como se deu o caminho até a congregação?

Terminei a faculdade muito diferente, com outras questões. Ser veterinária e constituir uma família parecia ser pouco. Naquele ano entrei em uma comunidade de vida em minha cidade, onde já participava da comunidade de aliança. Fomos morar em um lugar muito pobre, fazendo um trabalho com mulheres gestantes que precisavam de apoio para não abortarem. Foi nesse período que me senti chamada à vida religiosa.

Fiquei dois anos nesse local e saí para conhecer as congregações. Quando conheci a Copiosa Redenção, foi amor à primeira vista. Eu achava que me encontraria num carisma franciscano, porque a comunidade onde estava era assim, mas me identifiquei com o jeito de ser da Copiosa.

IDe+ | Ao ingressar na congregação, a certeza só aumentou ou houve momentos de insegurança?

Entrei no postulantado da Copiosa em 2004, tinha 25 anos. Aos poucos fui me adaptando à rotina e ao novo jeito de ser. Não tive insegurança, mas saudades da família e tudo isso faz parte. Contudo, o desejo de viver a vontade de Deus é maior do que todos os desafios.

IDe+ | Para quem sente o chamado, mas não sabe se está realmente sendo chamado, quais sinais podem ajudar nesse discernimento?

Em primeiro lugar, é necessária uma vida de oração, buscar esse Deus que aos poucos vai nos seduzindo. Depois, ter a coragem de buscar um carisma, o jeito de ser de uma congregação. Para isso é preciso conhecer, passar um fim de semana, fazer um retiro vocacional, ficar mais tempo. Se for ali, você vai perceber.

IDe+ | Quais são, para a senhora, as maiores alegrias e os maiores desafios de ser religiosa?

A maior alegria é saber que, diariamente, posso comungar e adorar Jesus Eucarístico. Em todas as nossas casas temos uma capela em que o Rei nos espera para um colóquio. Onde eu encontraria isso? Sou muito feliz de morar com o Rei e não saberia viver sem estar com Jesus. O maior desafio é a vida comunitária, morar com irmãs de culturas e educações diferentes. Precisa ter um coração aberto e flexível para acolher o diferente.

IDe+ | A senhora encontrou no beatbox e na música uma forma própria de evangelizar. Qual é o papel da alegria e das linguagens contemporâneas na missão da Igreja?

A alegria espontânea são características da Copiosa Redenção, de quem vive com autenticidade o carisma pessoal e congregacional que Deus deu. Acredito que quando a pessoa encontra o seu carisma, ela poderá ser criativa, alegre e espontânea. É encontrar o propósito que Deus deseja para ela, o sonho que Deus tem. Isso evangeliza por si só e gera no outro um desejo de viver essa alegria, mesmo diante da Cruz.

IDe+ | O vídeo viralizou, chegou a sete países, o The New York Times foi até a sua casa. O que mudou na missão depois disso?

Costumo dizer: mais eficaz que as redes sociais é o Espírito Santo. Fiquei impressionada com a pressa de Deus em cantar para o mundo: vocação! Deus deseja que cada um encontre sua vocação de filho amado de Deus e viva a santidade. Nos primeiros dias e meses, nossa missão aumentou muito, tivemos que ter uma jornalista nos acompanhando, dávamos entrevistas de manhã, de tarde e de noite, para mais de sete países. Tivemos que contratar uma assessora para cuidar da agenda. Depois de um tempo, graças a Deus, ficou mais tranquilo e continuamos evangelizando por meio das missões que Deus nos chama:  , retiros, acampamentos, grupos de oração.

IDe+| O que a senhora diria a uma jovem que sente que Deus pode estar chamando para a vida religiosa, mas tem medo de deixar família, profissão e o projeto de vida que imaginou?

Tenham coragem de viver essa aventura maravilhosa que Deus chama! Mais do que pensar no que vão deixar ou perder, é se projetar na parábola do homem que encontrou o tesouro escondido, vendeu tudo o que tinha com alegria e comprou aquele campo. Nós, da vida religiosa, compramos o campo. Nele está o tesouro, que é o próprio Cristo. Não vamos possuí-lo, a cada momento da vida religiosa Ele se revela, quer estar perto, nos chama a estar com Ele. Encontrar o seu lugar nesse mundo não tem preço que pague. Mas você só descobrirá se der os primeiros passos. Se tiver medo, venha com medo mesmo!

A Congregação Copiosa Redenção foi fundada em 1989 pelo Sacerdote redentorista Padre Wilton Moraes Lopes e atua em cinco estados brasileiros e em duas comunidades na Itália, com trabalho pastoral e social nas áreas de prevenção e recuperação do uso de drogas, acolhimento de idosos, reinserção social e evangelização.

Gostaria de conhecer mais histórias de religiosas? Leia:

Freira e enfermeira: Irmã Maria Eugenia mostra a importância da espiritualidade na área da saúde

Maria Teodora Voiron: a madre francesa que deixou um tesouro providencial escondido no Brasil

O que você achou desse conteúdo?

Deixe seu comentário sobre o que você achou do conteúdo.

Aceito receber a newsleter do IDe+ por e-mail.

Comentários

Cadastre-se

Cadastre-se e tenha acesso
a conteúdos exclusivos.

Cadastre-se

Associe-se

Ao fazer parte da Associação Evangelizar É Preciso, você ajuda a transformar a vida de milhares de pessoas.

Clique aqui

NEWSLETTER

IDe+ e você: sempre juntos!

Assine nossa newsletter, receba nossos conteúdos e fique por dentro
de todas as novidades.