A maioria das pessoas conhece o conto da Bela e a Fera por meio do filme da Disney, lançado em 1991. Essa obra cinematográfica revolucionou a história do cinema, porque foi o primeiro longa-metragem em formato de desenho animado indicado a Melhor Filme numa época em que não havia a categoria de Melhor Filme de Animação na premiação do Oscar, em 1992.
O clássico da animação foi inspirado no conto de fadas de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont (1756) e no filme francês de Jean Cocteau (1946). Essa história encanta gerações não somente pela beleza do seu romantismo, mas também pelo ensino de algumas virtudes cristãs para pessoas de todas as idades.
Em algumas versões, Bela tem irmãs invejosas e materialistas, razão pela qual o enredo ganha complexidade e outras camadas morais. No entanto, vou analisar o filme da Disney, pois este foca a narrativa no desenvolvimento moral da Fera e na importância de amar alguém além das aparências. Além disso, essa versão demonstra a importância do cultivo de três virtudes cristãs: humildade, mansidão e amor incondicional. Conheça a seguir o que podemos aprender com o filme A Bela e a Fera.
“Deus resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes” (Tiago 4,6).
“Porque todo aquele que se exaltar será humilhado, e todo aquele que se humilhar será exaltado” (Lucas 14,11).
“Era uma vez, num país distante, um jovem príncipe que vivia em um reluzente castelo. Embora tivesse tudo o que quisesse, o príncipe era mimado, egoísta, grosseiro. Mas, numa noite de inverno, uma velha mendiga veio ao castelo e ofereceu a ele uma simples rosa em troca de abrigo para o frio. Repugnado pela feiura dela, o príncipe zombou da oferta e mandou a velhinha embora. Porém, ela o aconselhou a não se deixar enganar pelas aparências, pois a beleza está no interior das pessoas.”

Cena da animação ‘A Bela e a Fera’. Reprodução/ Disney
No início do filme, conhecemos um príncipe que se sente superior aos outros por causa da sua beleza e da sua riqueza. Entretanto, ele não é bonito por dentro, já que o seu coração não tem humildade nem caridade. O personagem, orgulhoso, enfrenta um teste do destino: a visita de uma velhinha que pede abrigo no seu castelo para escapar do frio.
Ele expulsa a mulher do seu castelo por causa da sua aparência. Contudo, a atitude arrogante do rapaz logo gera um castigo: o príncipe é transformado numa fera horrenda e todos os empregados da fortaleza em que mora são transformados em objetos. Assim, quando o ser humano se afasta do caminho das virtudes cristãs, ele perde a sua humanidade ao cultivar paixões desordenadas. Podemos dizer que a Fera é a representação do homem que está perdido no pecado, no mundo dos instintos e na própria arrogância.
A transformação dos empregados em objetos é um castigo para o materialismo do príncipe. Apegado aos seus bens materiais, ele se esqueceu de dar valor às pessoas e de amá-las. A partir do momento em que os indivíduos ao seu redor são transformados em utensílios, o rapaz aprende o quanto é difícil ter uma vida marcada pela solidão. Mesmo morando em um castelo luxuoso, o seu vazio existencial aponta que não adianta estar cercado de bens materiais e não ter alguém para amar.

Cena da animação ‘A Bela e a Fera’. Reprodução/ Disney
A visitante do conto era uma mulher poderosa que queria dar lições morais no príncipe ao esconder a sua beleza e a sua juventude por trás da aparência de uma velha mendiga. Ela resolveu transformá-lo numa fera quando percebeu que não havia amor no coração dele. A rosa que ela ofereceu tinha o encanto do amor e era o símbolo do tempo da sua salvação: ele deveria encontrar o amor verdadeiro até a última pétala da rosa cair, senão estaria condenado a permanecer fera para sempre.
Perder a boa aparência seria uma grande lição de humildade para o príncipe. Na aparência de uma fera, ele somente encontraria o amor se aprendesse a desenvolver virtudes. Tendo em vista que não poderia encantar uma pessoa com a sua beleza, ele teria de desenvolver qualidades morais em seu comportamento para conquistar uma moça. No seu caso, apenas uma mulher virtuosa e que soubesse enxergar a sua beleza interior por trás da sua aparência monstruosa poderia salvá-lo da sua condição.
“Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas” (Mateus 11,29).
Além do orgulho, outro pecado da Fera é a ira. A Bela é a heroína da história, porque ela ensina a virtude da mansidão para o personagem principal. Como uma moça humilde de uma aldeia francesa, ela tem as virtudes necessárias para ensinar a Fera a ser alguém melhor.

Cena da animação ‘A Bela e a Fera’. Reprodução/ Disney
Mesmo tendo beleza exterior, Bela nunca foi soberba. Essa princesa sempre procurou desenvolver virtudes nobres no seu interior, bem como expandir a sua vida intelectual por meio da leitura de boas obras literárias. Como uma moça inteligente, ela nunca se importou com as aparências. Gaston, o rapaz mais belo da sua aldeia, não foi capaz de conquistar o seu coração.
Quando Fera conhece Bela, o príncipe preso no corpo de um monstro aprende a mergulhar num mundo de virtudes. O seu perfil colérico e irritável jamais conquistaria aquela moça tão delicada, calma e inteligente. Para conquistar o amor dela, seria necessário desenvolver a mansidão. No convívio com a personagem principal, a Fera aprende a resgatar a sua própria humanidade aos poucos. Durante o conto, abandona o perfil explosivo e a raiva para adquirir novas qualidades: mansidão, humildade e paciência.
“O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha” (1 Coríntios 13,4).
“O olho é a luz do corpo. Se teu olho é são, todo o teu corpo será iluminado” (Mateus 6,22).
“A medida do amor é amar sem medida.” Este ensinamento de Santo Agostinho indica que o verdadeiro amor não pode ser quantificado nem restringido pelos limites humanos, já que ele deve ser infinito, ilimitado e incondicional. A Bela e a Fera é um conto que retrata o amor na sua forma mais pura, porque ele não é limitado pelas aparências. Bela é capaz de ver o interior da Fera: no seu âmago, há um príncipe que tem uma semente de bondade. Ela encontra ternura por trás do jeito rude do personagem. Essa princesa é paciente e bondosa, porque está repleta de amor e demonstra o modelo de caridade presente na Bíblia.

Cena da animação ‘A Bela e a Fera’. Reprodução/ Disney
Ela tem sensibilidade para perceber as qualidades dele ao observar as suas atitudes gentis e o seu esforço para ser alguém melhor. Bela é capaz de ver o homem que está dentro da Fera através do olhar dele, pois “os olhos são as janelas da alma” (como dizem os poetas e os sábios). Na Bíblia, há uma passagem em que o Senhor diz que “o olho é a luz do corpo”. Deus vê o nosso interior também. Apesar das nossas fraquezas, existem sementes de virtudes que podem ganhar vida dentro de nós. O Pai quer que o ser humano abandone o pecado e permita que a sua beleza interior floresça por meio da santidade.
O amor da Bela foi a salvação da Fera: o príncipe foi capaz de encontrar a libertação dos seus defeitos morais e desenvolver a sua humanidade quando recebeu o amor dela. O sentimento da personagem foi capaz de salvá-lo da sua condição, pois o poder do seu amor impulsionou a transformação da Fera em príncipe.
Dentro do cristianismo, sabemos que o amor é a fonte da nossa salvação. A redenção veio do amor que Jesus Cristo mostrou para a humanidade. Jamais libertaríamos a nossa alma do pecado nem encontraríamos a verdadeira salvação se não existisse o amor incondicional. O príncipe recupera a sua beleza externa quando passa a cultivar bons valores e beleza interior. Os objetos do seu castelo retornam à identidade humana assim que o príncipe aprende a amar o próximo como a si mesmo. Ao lado da princesa Bela, ele vive uma felicidade completa.
Embora o seu nome não seja pronunciado na animação, vários materiais apontam que seja “Adam”. Assim como Adão, da Bíblia, representa a condição humana decaída pelo pecado, o príncipe Adam perdeu a sua humanidade por causa do seu orgulho. A aparência de “Fera” é uma representação da decadência e da necessidade de salvação. Além disso, ele foi salvo pelo amor, o que indica mais uma semelhança com os ensinamentos cristãos.
A maior vitória do cristão é vencer a si mesmo após grandes batalhas espirituais contra os seus pecados e as suas fraquezas. Para representar a importância de lutar contra si mesmo na jornada do desenvolvimento moral, o vitral do castelo do príncipe possui a frase “vincit qui se vincit”, que significa “vence quem vence a si mesmo” em latim (é possível visualizar essa frase no início do filme).

Cena da animação ‘A Bela e a Fera’. Reprodução/ Disney
“Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é, as coisas velhas já passaram, eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5,17). Este versículo inspirou o desenhista da Fera, o ilustrador Glen Keane. Ele afirmou que a sua jornada de transformação espiritual, as esculturas de Auguste Rodin, as esculturas de Michelangelo e uma passagem bíblica o inspiraram na hora de desenhar a cena da transformação da Fera em príncipe e os traços humanos do personagem.
A Bela e a Fera é um filme que transmite uma bela mensagem sobre a importância de buscar a nossa transformação. Quando alguém vence a si mesmo e supera maus hábitos, uma transformação profunda acontece no seu interior. A partir do momento em que o autoconhecimento lança luz sobre as mudanças pessoais necessárias, o indivíduo fica mais consciente das suas virtudes e dos seus defeitos.
Para vencer a si mesmo, é preciso buscar a luz de Cristo, pois somente Ele é capaz de transformar a nossa vida. Podemos abandonar os antigos vícios por meio da fé, porque ganhamos um fôlego novo. Quando nós entregamos a nossa caminhada para o Senhor, tudo passa a ser diferente.
Na próxima vez em que você for assistir ao filme A Bela e a Fera, você vai se emocionar ao ver cada cena com novos olhos. Embora seja um filme infantil, ele é uma excelente oportunidade para os adultos refletirem sobre a própria caminhada de transformação espiritual. As crianças podem receber lições valiosas sobre humildade, mansidão e amor incondicional também.
Confira o meu artigo sobre o conto da Pequena Sereia:
Confira o meu artigo sobre a virtude da humildade:
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